22 maio, 2009

Rapidinhas

Diagonal - Diagonal [Rise Above 2008]
Estes ingleses de Brighton editaram no ano passado aquele que deve ser o seu registo de estreia, um disco com o carimbo Neo-Prog e sem medo de se colar às suas referências que vão de King Crimson a Pink Floyd. Se for mesmo o disco de estreia, então é dar espaço para olearem a máquina. Caso não seja… Einstellung - Sleep Easy Mr Parker [Bearos 2006]
Mesmo estando cada vez mais selectivo nas minhas pesquisas musicais, os critérios para chegar a determinada banda/ disco são vários. Confiando na organização do festival Supersonic, perguntei-me a que soaria esta banda com o nome retirado do filme “Asas do Desejo”de Wim Wenders e que vai fazer a primeira parte dos Aethenor muito em breve. Sleep Easy Mr Parker é a primeira edição destes ingleses e é “apenas” um single de 28 minutos que respira um hipnótico krautrock que não deixará insatisfeito qualquer fã dos Neu! É bom, deixa-nos a salivar enquanto o debut errr Wings of Desire não nos chega às mãos. Banda a ter debaixo de olho, sem dúvida. Fushitsusha - Double Live [PSF 1991]
Keiji Haino é um nome familiar para quase todos nós, já a sua banda nem por isso. Os japoneses Fushitsusha são uma descoberta com poucos meses para mim e a cada audição este duplo de cerca de 150 minutos vai crescendo. Aliás, eu vou crescendo. Este não é mais uma “noisada” de uma banda japonesa e “portanto vamos ouvir porque é exótico”. Não, isto é História e mais um daqueles discos que nos desafiam e puxam por nós. A essência é o psicadelismo, mas não deixem que esta palavra vos confunda. Em 91 tinha 8 anos e ainda não tinha comprado o meu primeiro disco. Hoje, aos 26, acho que vendia a maior parte dos que tenho para ter este original. Master Musicians Of Bukkake - Totem One [Conspiracy 2009]
“World Improvisation Music”, diz o Pedro Mendes via sms. Eu concordo, só nunca tinha pensado realmente nisso porque o disco é uma trip tão fascinante que tudo o resto me passa ao lado. É uma excursão ritualista e espiritualista pelos caminhos do psicadélico e do exotismo guiada por uma série de músicos low-profile mas com um invejoso currículo. Don McGreevy que esteve há pouco no Porto com os Earth, o ex Burning Witch e actual Asva Brad Nowan, Randall Dunn (talvez o meu produtor preferido) e Alan Bishop são alguns dos nomes envolvidos. Aconselho a todas as mentes abertas a não só escutarem o álbum como a investigarem conceitos e significados que estão por trás deste projecto, todo ele é uma viagem de enriquecimento. Esta vai ser uma das bandas mais interessantes dos próximos anos. Aliás, já o é… Moss - Tombs Of The Blind Drugged 10'' [Rise Above 2009]
Depois de um brutal Chtonic Rites e de um agridoce Sub Templum, estava entusiasmado para ouvir o regresso dos túmulos dos ingleses Moss. Apesar de diversas bandas terem um som similar, sei quando estou a ouvir Moss, têm algo de único nas camadas das guitarras. É terror… extremo… que atinge novas profundidades, dizem, e tenho pena que ainda ninguém tenha dado um álbum deles ao senhor Romero. Riffs monolíticos, vozes destroçadas e muito mistério nestes três temas (um deles é uma cover dos Discharge) fazem deste uma compra obrigatória. Temos que os trazer a Portugal! Pandit Pran Nath - Ragas of Morning & Night [Gramavision 1986]
Pandit Pran Nath, mestre raga indiano, mudou-se para NYC em plenos sessentas e influenciou toda uma geração de músicos avant-garde. É habitual encontrarmos determinados músicos citarem-no como infuência nos seus myspace, por exemplo. Foi com ele que grande parte aprendeu, entre outras coisas, a capacidade técnica para moldar, esculpir ou expandir uma simples linha fonética ao ponto de a mesma se transformar numa experiência quase transcendental. Estas duas ragas foram gravadas pouco antes da sua ida para os states e, infelizmente, só existem em cassete.
Se quiserem saber mais do mestre: http://www.hungryghost.net/PPN/BoonPPN.htm

Pelican - Ephemeral EP [Southern Lord 2009]
Pelican Pelican Pelican, serão sempre uma banda especial. Por falar nisso, está quase a fazer dois anos que os trouxemos ao Porto. Que noite… City of Echoes, o último trabalho da banda, também é datado de 2007 por isso se tirarmos o split com TAAS que não trouxe nada de novo, a excitação para novos temas numa nova editora era muita. Logo ao primeiro riff apercebemo-nos que banda estamos a ouvir. Podem haver dezenas de bandas parecidas, mas Pelican é sempre Pelican. No geral, é um EP que serve apenas para nos deixar a salivar pelo álbum que aí vem também através da Southern Lord. Notam-se algumas diferenças na composição, mas não há nenhum tema que me leve fora daqui. Mas lá está, é Pelican. Ponho a tocar, cumpre, divirto-me… Destaque para a cover de Earth – Geometry of Murder - com o próprio Dylan! Vai rodar bastante nos próximos tempos, mas é provável que daqui a um par de meses já o tenha esquecido. Veremos…

11 fevereiro, 2011

Catherine Hennix e o cravo eléctrico

Sueca de nascença mas criada entre Estocolmo e os Estados Unidos, Catherine Christer Hennix é uma reconhecida matemática, filósofa e artista de 63 anos que desde cedo começou a estudar a música de Xenakis ou Stockhausen embora o seu grande turn on tenha sido quando conheceu e aprendeu, durante os anos setenta, com os mestres La Monte Young e Pandit Pran Nath.

"The Electric Harpsichord" é uma peça inquietante tocada apenas uma vez em 1976 (imagem em cima) e foi composta com três Yamaha afinados manualmente e em entonação justa, ou seja, as frequências das notas relacionam-se por razões de números inteiros, e um gerador de ondas senoidais. Vinte e cinco minutos hipnotizantes de relexão espiritual que parecem uma eternidade em movimento, relutantes na percepção se os padrões são repetitivos ou se se transformam a cada audição. Brilhante!

É uma obra-prima do minimalismo. Esquecida. Em alguma gaveta ficou e finalmente em 2010, trinta e cinco anos depois, viu a luz do dia numa edição de 5 polegadas em que inclusive traz ensaios de Glenn Branca e Henry Flynt e dois poemas do já mencionado LMY. Um mimo!
Embora situada entre o drone, a raga e a música erudita, os drones continuam a ser, para mim, uma das experiências audio mais poderosas que a música pode dar. Não me deixam indiferente.

Hennix’s The Electric Harpsichord is a gigantic piece, ma killer, a work which exists outside of style or genre. It is unbelievable. It creates blocks of sound that move min and out of each other to create the effects. It is a pure perfect piece of music that resonates and resounds and creates a universe that it is impossible by other means. In our primitive and unenlightened culture it becomes a work of transcendent power.
Glenn Branca

08 abril, 2009

SOMA está quase aí


Stephen O'Malley
Culturgest, Porto
11 de Abril, Sábado
22h
5€

Este é o primeiro concerto de uma série de cinco que a Culturgest apresenta este ano na sua Galeria de exposições da Avenida dos Aliados no Porto. Reinventando os vocabulários do rock, da música contínua e do metal contemporâneo num percurso iniciado há década e meia, Stephen O’Malley, guitarrista americano actualmente a viver em Paris, é dos artistas destes campos estilísticos que maior detalhe e invenção aplica no desenho, na arquitectura acústica e no impacto físico-psíquico do som.

O’Malley trabalha métricas pentatónicas lentíssimas e emprega níveis decibélicos extraordinariamente elevados, num processo minucioso de inscrição e armação sonora no espaço em que explora a acústica do local e os limites da tolerância humana à vibração acústica através do uso da guitarra eléctrica ligada a um massivo muro de amplificadores a válvulas, oferecendo espaço de respiração à saturação do som e a uma densa teia de sobreposições microtonais. O seu ritmo é o do vocabulário do doom metal, informado pela amplitude de dinâmica e pelo léxico herdados de uma pluralidade de exploradores e transgressores de várias áreas, de Hendrix a Coltrane, Keiji Haino, Pandit Pran Nath ou Sonny Sharrock.

Para além do projecto que fundou, os SunnO))), uma das bandas fundamentais drone/doom metal, tem trabalhado com outros artistas que possuem igualmente uma relação plástica e extrema com o som, de Peter Rehberg a Lasse Marhaug, Oren Ambarchi ou Attila Csihar.

O’Malley é tido como uma das principais figuras da última década na afirmação estética do metal enquanto género de vanguarda e espaço artístico aberto à liberdade e expansão criativas.

Organização: Culturgest e Filho Único

16 março, 2011

Uma das coisas boas de viajar é voltar a casa com saudades. Do que cá tinha ficado e do que se ficou a conhecer.

Ainda mal me recompunha do prazer e da honra que foi recebermos a excelente pessoa que dá pelo nome de Scott Michael Kelly e já apanhava o avião para realizar outro sonho: Nova Iorque.

Antes de mais, e perdoem-me a paixão se às vezes falo de mais, mas a todos os que foram ao concerto, e porque sem vocês nada somos, guardem os vossos bilhetes para o dia em que trouxermos os Neurosis a Portugal. Julgamos que esse dia já esteve mais longe e, mesmo sem nada garantirmos, nunca escondemos o desejo e o trabalho constante de forma a concretizarmo-lo. A todos vocês que marcaram presença, vocês serão recompensados nem que seja com um simples poster. Mas serão, a vossa companhia tem sido fundamental e prazerosa.

Voltando à grande maçã, não me vou alongar pois a melancolia nostálgica cair-me-ia em cima. Já todos lá estivemos mesmo sem lá estar e vocês entendem o que quero dizer. São as referências cinematográficas em cada esquina, as canções, os livros… Chamem-lhe a capital do capitalismo pois não é mentira nenhuma embora só alinhe quem quiser. Concordem com Bautrillard quando este fala em prostituição de parede a parede ou na intensidade turbulenta das ruas nova-iorquinas. Sublinhem até quando diz que é uma cidade onde os loucos foram libertados. Mas façam-no quando lá estiverem pois eu pouco me importei de ser mais um, mais um louco que deambulava nas avenidas sem fim num ritmo único tal e qual um tema de jazz. Digam o que disserem, e felizmente já estive em alguns sítios marcantes para poder comparar, mas apesar de loucos, e ao contrário do que se pensa, a malta é genuína e solidária. Não é americana, a cidade é mesmo de todo o mundo. Aliás, a cidade é um próprio mundo.
E porque é sobretudo pela música que nos juntamos aqui e porque de outra forma estas linhas não chegariam se partilhasse tudo o que vivi, destaco as experiências musicais:
Joe McPhee com Chris Corsano na sala de John Zorn – The Stone – cujo espaço intimista é ponto de encontro de melómanos que desembolsam 10$ por concerto (às 20h e 22h), muitos sem saberem ao que vão. Éramos uns 50. E quem encontrei eu a fazer bilheteira? Toby-Kayo-Dot-Driver. É verdade, até em Nova Iorque o mundo é pequeno… Set interessante, mais experimental do que há um ano atrás onde os vi em Santiago de Compostela. Foi um concerto de apresentação ao debut do duo – Under a Double Moon – se bem que por política da casa não houve/ há merch à venda, não há bebidas e quase que cadeiras para toda a gente. Há música, só música num pequeno rectângulo numa esquina de Lower East Side sem qualquer indicação à entrada. Joe McPhee não se esqueceu de dedicar o concerto a Ornette Coleman que no dia seguinte fazia 81 anos. Eu não me esqueci de agradecer ao próprio Joe e ao Corsano por uma noite tão especial. Três blocos depois estava no hotel.
Do outro lado, também a uma curta caminhada mas já em plena Village, ficava o (le) poisson rouge onde os Liturgy me arrasaram completamente. Muito mais instrumental do que o esperado, creio que não é por acaso que uma Thrill Jockey assina uma banda de Black Metal (embora seja redutor etiquetá-los só como). Foram caóticos duma forma bem densa e complexa, intensos do início ao fim onde só entre temas se respirava. O som estava perfeito perfeito, mas foram aqueles temas a darem-me a energia necessária depois de um dia esgotante. Energia essa que se transformou em aborrecimento assim que os The Ex subiram ao palco. Poderá parecer dicótomo, mas adoro os guitarristas da banda noutros projectos e até relembro este, mas a banda em si, mesmo que bem recebida numa cidade que até foi fundada pelos holandeses, cansa-me, os seus temas cansam-me.
Para terminar, não um concerto mas uma experiência multissensorial tão ou mais interessante: a Dream House de La Monte Young e de Marian Zazeela situada em Tribeca que não é mais que uma instalação de tempo medida por uma configuração de frequências contínuas de som e luz. O tema de LMY é um drone que contém 32 frequências diferentes em que podemos e devemos ouvi-las e senti-las caminhando entre as duas salas que são separadas por um estreito corredor no terceiro andar de um prédio. Cá fora passa completamente despercebido. Cada frequência tem os seus próprios pontos de ressonância e não ressonância em todo o espaço (pontos de intensidade e suavidade) e assim que deixamos o calçado no hall e entramos naquele espaço em memória e homenagem a Pandit Pran Nath (um pseudo-altar também por lá se encontra) devemos “passear” para experimentar as mais baixas cujo comprimento é longo para sentir a sua diferença ou apenas relaxar sentado ou deitado fazendo pequenos movimentos com a cabeça para apreciar a diferença nas maiores. A sua mulher, Zazeela, tratou da luz e das esculturas. O objectivo, ou um dos, é experienciar os dois meios como um só. Enfim, só experimentando e fica aqui a sugestão.