26 fevereiro, 2009

SunnO))) @ Corsica Studios, Londres 22-02-2009

Há quem experimente drogas, quem se imole, quem medite para tentar encontrar uma paz interior, a que muitos chamam “deus”. E há quem atinja esse estado de espírito (ou do que lhe quiserem chamar) através do som. John Cage procurou o silêncio. Sentou-se numa sala à espera de não ouvir absolutamente nada. O som, contudo, estava sempre lá. Acompanhava-o para onde quer que fosse. A partitura vazia não equivalia ao silêncio. Esse era uma ilusão. O que Cage devia ter procurado era algo completamente diferente. Era o vazio através do som total, um tal caos que deixa de ser caos e que, quando visto ao longe, se torna ordem. Isto não é uma crítica a um concerto. Isto é uma declaração de um buraco negro que se abriu no planeta numa destas noites.
No passado domingo, ao entrar nos Corsica Studios, numa zona suspeita de Londres, a sensação imediata foi a de que algo estava errado quando vi os Sunn O))) na Casa da Música. Não são uma banda para se ver num espaço convencional. O caminho deve ser traçado numa sala deste género: muito pequena, completamente negra, onde qualquer direcção indica um amplificador. Particularmente no palco. Muitos amplificadores. A wall of sound nunca fez tanto sentido. É uma parede de amplificadores. Não há como negar o receio daquilo que pode vir a acontecer aos ouvidos. Aliás, por essa mesma razão o bar distribui tampões de borla. Com um aviso em várias paredes: “não nos responsabilizamos por estragos permanentes”. O óbvio.

Stephen O'Malley e Greg Anderson entram em palco. Trajam os habituais robes ao estilo monástico, empunham uma garrafa de vinho cada, pegam nas guitarras que se encontram em cima dos amplificadores. Alguém, claramente sob o efeito de psicotrópicos, grita “só a morte é real”. Os restantes, sóbrios e sérios, riem-se. E é aí que tudo começa. Por mais de hora e meia, os dois homens em palco, auto-intitulados Sunn O))), “tocaram”. Tocaram nas guitarras, sim, literalmente. Mas o verbo tocar aqui não faz sentido. É a Criação, por breves momentos. Fechar os olhos e ouvir o que vinha do palco permitia escutar para lá do que realmente estava a acontecer. A primeira camada era só uma fachada, a porta de entrada para quem simplesmente quer ouvir barulho. É nas restantes coberturas sonoras que se encontra o significado de tudo isto. Era como ouvir a formação de um novo mundo e as nascentes de novos rios e mares, oceanos a serem gerados, o sexo entre sóis e luas, suado, trepidante, incandescente e, acima de tudo, maravilhoso. Por baixo de tudo isso, os pássaros que nascem e cantam, as vozes que se ouvem nas bocas fechadas de todos os presentes, mas principalmente, de quem não se encontra na sala. Por baixo de tudo isso, é o verdadeiro Acontecimento. O palco não importa nada. O que importa são as vibrações que nos puxam e que nos levam a uma entidade comum. O tremer da pele e da carne diz-nos que não estamos ali. Nós não somos os corpos que estão de pé numa sala muito pequena, completamente negra, repleta de amplificadores num certo armazém da capital inglesa. Nós já não estamos ali. É uma viagem ao interior uns dos outros, quando deixamos de viver e passamos a formar um só ser. Momentaneamente é claro. Nem todos somos os janados da frente que fazem cornos para o palco ou que têm as mãos em permanente pose de quem segura um cacho de uvas (um dos quais é o mesmo que gritou a tal frase de só a morte ser real).

Mas toda a masturbação chega a um orgasmo (como este último parágrafo) e assim foi com o concerto. A celebração dos dez anos do grupo, com o lançamento em 1998 dos The Grimmrobe Demos, aconteceu assim, num concerto único no Reino Unido. As duas guitarras acabaram a noite suspensas, sozinhas, sem que o som vindo delas terminasse. Alguém dizia no início: “isto é o século XXI”. Sim, é isto o século XXI. Há quem diga que é a banda sonora para o Apocalipse. Muito pelo contrário.
Tiago Dias in Bodyspace

10 Comments:

At 26.2.09, Blogger  said...

acho que foi das melhores reviews que já li dum concerto. coloquei me no meio do público por uns segundos. e agora tenho remorsos de não os ter visto na CdM.

 
At 26.2.09, Blogger Tiago Esteves said...

André,

Cheguei a pensar que tinhas sido tu a ir, não fosse ler os créditos no fim lolol tinha ideia que me tinhas dito que n ias, mas podia ter havido um volte face lolool

boa review...adorava ter estado presente. Espero poder vê-los no Primavera, mas n será a msm coisa...

 
At 27.2.09, Blogger Adriano said...

Completamente offtopic (já podiam pensar em meter aqui um shoutbox qq para não se poluir comentários), acabei de cancelar a encomenda do album dos Mastodon... à 3 audição ainda me cheira a alice in chains :S

Tenho de insistir, mas o CD edição especial esse já não vem.

 
At 27.2.09, Blogger ::Andre:: said...

Adriano, podíamos tanta coisa, mas infelizmente este aspecto é o único possível para já. E por mim não há nenhum problema falares de Mastodon num tópico de Sunn, etc etc. Está à vontade :)
Estou à espera de um rip decente. O que tás a ouvir tem boa qualidade e está completo?

Tiago, cheguei a pensar ir, por acaso cheguei, mas quero vê-los com a trupe toda e não só como dupla.

Boa review!!

 
At 27.2.09, Blogger Adriano said...

Falta-lhe ao meu RIP uma música :)

 
At 27.2.09, Blogger jorge silva said...

eu também tenho o rip que não tem a última faixa (que, pelo que eu li tem 13 minutos) mas ainda não o comecei a ouvir.
pelos comentários que tenho lido por aí, isto é uma versão promo não masterizada.

a review do concerto está muito boa, transmite mesmo a sensação de estar lá no meio.
no concerto na casa da música eu passei o tempo quase todo com as mãos pousadas no palco a senti-lo a vibrar e inclinado para a frente de olhos fechados (isto há cada um...). foi uma experiência e tanto!

 
At 28.2.09, Blogger Daniel said...

Junto ao palco c todo aquele "fog",só mesmo de olhos fechados e quase ñ respirando!
Aquilo matava!
Mágico na mesma,para mais c Earth!

 
At 2.3.09, Blogger jorge silva said...

Daniel:
Podes crer!

Meses depois daquilo, quando eu ouvia Sunn O))), ainda me parecia que começava a cheirar aquele fumo à minha volta!

No dia a seguir ao concerto ainda parecia estar com uma percepção diferente de tudo o que me rodeava.

 
At 2.3.09, Blogger ::Andre:: said...

Sunn ao vivo é brutal. Espero vê-los novamente este ano...

 
At 2.3.09, Blogger Crestfall said...

Quando o concerto da CdM acabou eu nem sabia onde estava nem sequer se tinha gostado.

 

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