08 junho, 2011

Next Big Thing

O mundo é feito de tendências. No mundo da arte, muito se discute a intemporalidade de uma peça artística vs. a sua clara referência temporal. Faria sentido hoje existirem outros Nirvana? Talvez não. Mas dada a influência que tiveram na cena grunge, intemporal, tivemos dezenas de outras bandas nos 90's que aproveitaram a tendência e se colaram ao género, morrendo quando o mesmo saturou. Aconteceu com o grunge, o britpop, o prog dos 70's, o post-punk dos 80's, com o nu-metal, com o metalcore, com o post-rock/metal, está a acontecer com o chillwave e com o sludge e por aí fora. Daqui resulta que de todos os géneros, sobrevivem os pioneiros.

Também notamos que, na discussão sobre a originalidade de cada género, o chamado revival é algo que acontece frequentemente, principalmente desde que os Strokes se lembraram de ir ressuscitar o garage rock, os sapatos bicudos e as calças justas. Mas esta é uma questão que não se prende só com a chamada música indie, é algo transversal a todos os géneros musicais. Que dizer deste revival do thrash dos 80's, com putos a ostentar jaquetas cheias de patches de Voivod, Kreator ou Annihilator? Ou do rock psicadélico, com os nossos queridos Black Bombaim à cabeça cá em Portugal? Ora, eu lembro-me quando comecei com a cena das bandas aí há uns 15 anos atrás, e tudo aquilo que nós queriamos fazer era ser originais. Se bem que hoje as bandas queiram o mesmo (acho que não há nenhum artista que não sonhe com isso), acho que o que mudou nas novas gerações é a de que eles não se preocupam tanto em ser totalmente originais, mas mais com o facto de honrarem as suas influências e fazê-lo da forma mais genuina que possam. Abandonamos nas entrevistas o "não nos conseguimos inserir em nenhum rótulo" para um "estas são claramente as nossas influências, tocamos este género e temos muito orgulho nisso". Para mim, é de louvar.

Acontece que hoje eu olho à minha volta e não consigo encontrar a tal "next big thing", a tal tendência que corra nas veias da sociedade de forma tão evidente que todos estejamos a tentar fazer algo que lhe corresponda, ou pelo menos a ter uma tshirt da banda para ir ao bar da cena. De uma forma geral, o que me parece é que hoje as tendências muitas vezes nem chegam a ter um ano de duração dada a velocidade com que são divulgadas, colhidas, espremidas e depois deitadas fora. Acho que este é um fenómeno novo, porque nem sequer temos tempo para apreciar uma tendência como deve ser, e quando estamos a sair dessa tendência para outra, já a outra está no ponto de saturação. Eu, por exemplo, tenho-me virado muito para os oldies, simplesmente porque não tenho capacidade para acompanhar 1/10 dos novos lançamentos que pululam no mercado musical, estando ainda, por exemplo, a ouvir muito do que se fez no ano passado. Sim, tenho quilos de gigas de música deste ano, mas muito ainda não consegui ouvir.

Para mim, isto é frustrante. Ou eu já estou a ficar cota e a storage do meu cérebro já não dá para mais, ou então é mesmo uma avalanche incontrolável de nova informação que nenhum dos nossos cérebros consegue assimilar. Porque para mim não é importante ouvir um cd 2 ou 3 vezes e não lhe tocar mais, eu preciso de ouvir o mesmo disco durante semanas (meses até, como é o caso do novo de Grails, por exemplo) para poder saborear tudo o que a banda me oferece.

E quanto a vossemecês, acham que há efetivamente uma next big thing hoje? Qual? E como vêm a música de hoje e este fenómeno de ejaculação precoce das tendências musicais?

4 Comments:

At 9.6.11, Blogger jorge silva said...

acho que actualmente é tudo demasiado voraz e rápido para que surja uma next big thing, pelo menos nos moldes a que estávamos habituados. actualmente, no metal, fala-se no "djent" mas parece-me tudo muito residual para ser, ainda, next big thing.

quanto ao meu consumo: durante o ano passado notei em mim uma tendência crescente para deixar de estar tão preocupado com os novos lançamentos (que acabava por só ouvir uma vez, ou pouco mais) e em voltar a preocupar-me em usufruir mais, em ser mais selectivo. tenho constatado que tenho "tirado" menos coisas e tenho feito por, dentro dessa selecção, ouvir pelo menos algumas com mais atenção.
por acaso estabeleço um paralelo (no meu comportamento) como "boom" do thrash nos anos 80 - consumia tudo a que podia deitar a mão e acabaram por sobrar um punhado de bandas, que foi também o que aconteceu com o que andei a descobrir há 2 ou 3 anos atrás para agora.

 
At 9.6.11, Blogger Tiago said...

A idade é lixada! A verdade é que cada ano que passa, moldamos mais os nossos gostos, e cada vez temos menos paciência para ouvir as coisas novas de cada ano, que ainda por cima são tantas. Mas é justo! Cada vez há mais dificuldade em sermos surpreendidos com o que vai saindo, por mim falo.
O ano passado também senti o mesmo que o Jorge: mais despreocupado e relaxado. Chega a um ponto que preferimos bem mais tirar proveito de algo, do que andar a descobrir e muitas vezes só ouvir uma ou duas vezes. Que é um bocado frustrante, mas é os tempos que correm..
Não vos mete impressão que quando saiu um disco logo nessa semana, ou até antes dele sair já existem reviews? Porquê esta necessidade, esta pressa? Acho que há muito disco que se torna/tornará underrated com o passar dos anos à custa destes consumos à pressa.
Por outro lado, uma pessoa nunca se cansa de ouvir bandas mais antigas, porque encontra-se sempre grande música e mais impressionante até do que muita que é feita agora. Acontece a cada passo!
Quanto aos dias de hoje tenho muita dificuldade em perceber o que é a next big thing. E acho que acontece com toda a gente, que também não a encontra.
Mas também não é nada importante, o importante é ir ouvindo aquilo que gostamos!

 
At 10.6.11, Blogger Rui said...

A mim parece-me que a next big thing é o individualismo, a internet usada para personalizarmos o nosso gosto a um extremo que a maior banda do mundo para mim pode ser uma banda que a maioria dos meus amigos nem sequer ouviram falar.

A internet, e a facilidade que existe hoje em dia em fazer música trouxe muita coisa boa, mas hoje em dia parece que cada pessoa ouve a sua música sem real partilha e a vontade de conhecer mais coisas com potencial interesse fazem desaparecer as bandas a um ritmo alucinante, acho que uma banda que hoje em dia comece e queira construir uma carreira ou lança albuns sem parar e estão sempre a tocar ao vivo ou a cada album começam tudo do principio porque entretanto foram esquecidos.

 
At 15.6.11, Blogger Neuroticon said...

Este é para mim o melhor texto aqui em muito tempo. E isto, porque poderia ter sido eu a escreve-lo! Concordo absolutamente com tudo o que dizes!
Por exemplo, o inicio dos 00's foi uma época rica em novas transformações, Isis, GY!BE, Converge e muitas mais bandas a criarem albuns brilhantes e acho que a partir do final dessa década já não apareceram bandas novas com muito potencial ou que trouxessem algo novo.
Tal como tu, não consigo acompanhar os lançamentos de hoje em dia e resigno-me a ir ouvindo aquilo que ja conheço e sigo, coisas novas é muito complicado, e tal como tu dedico-me mais aos oldies...
Sempre quis chegar a cota com os gostos actualizados e nunca quis ser um "cota com patches de slayer no casaco" mas parece-me que também eu fiquei mais colado na minha "era"... :|

 

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