08 março, 2010

Som espectral, pontos de fuga e os espaços miticos


O tópico sobre o Black Metal era inevitável não era? Digam lá, já estavam à espera.
Apesar de hoje em dia não poder afirmar que tenha um género musical preferido ou onde me enquadre a 100%, posso afirmar a importância que o Metal teve em mim na minha adolescência, em especial o Black Metal. Participei em bandas, criei zines, apoiei algumas pessoas e apesar de hoje em dia a minha participação directa neste meio já não ser tão activa, é um subgénero do metal que consumo e sigo com alguma regularidade.

Atenção para um detalhe importante: nesta minha introdução, as afirmações que fiz não estão carregadas por algum tipo de nostalgia pelos “bons velhos tempos” ou porque “hoje em dia já não é como dantes…”. Muito pelo contrário. Talvez agora, com o passar do tempo e com a distância que este coloca entre nós e as coisas que experienciamos, eu ganhei uma outra capacidade de analisar os produtos e seleccionar de acordo com os meus gostos e preferências.

Esta capacidade de olhar para trás e tentar analisar os conteúdos formais e conceptuais de um estilo com o qual sempre tive uma relação muito pouco objectiva e analítica, fez-me constatar que sempre dei primazia ao Black Metal com uma tendência mais primitiva. E aqui introduzo mais uma nota importante: a definição de primitivismo que aqui refiro é uma que se relaciona com uma noção de tempo e espaço ancestral, de passado, ainda que mítico e imensamente indefinido. Nada tem a ver com gravações falhadas, execução técnica má e produtos de baixa qualidade para esconder a evidente falta de talento dos músicos.

O que refiro acima, vai de contra a alguns preconceitos típicos aos críticos e a alguns defensores demasiado cegos do género: o Black Metal é acima de tudo um género cujo sucesso está dependente do seu som, da sua produção. Deste modo, mais que focar em composições complexas e desafiantes do ponto de vista técnico, importa apostar em valores intrínsecos ao próprio som, tais como textura, reverberação, tonalidade, tempo, etc…
Vejam um exemplo da musica criada por Wolves In The Throne Room ou Paysage D’Hiver ou recuando mais ainda, o “Filosofem” de Burzum ou o “Transilvanian Hunger”. Mais do que boas composições, o que temos é um som que vagueia num espaço indefinido e infinito, uma neblina sonora.
O padrão rítmico, a base, tem uma cadência repetitiva, básica, primordial. Actua como uma guia indutora de transe, como o tambor de um xamã, marcando as espirais sonoras.

Mas agora largo a bomba: não venho aqui de Wolves In The Throne Room ou de nada de novo feito pelo Varg Vikernes. Não que tenha algo contra as bandas acima citadas, mas na verdade, WITTR por uma razão ou por outra nunca estiveram muito tempo no meu leitor de cds e o que ouvi do “Belus” não me agradou por aí além (excepto a “Glemselens Elv”)

Chegou às minhas mãos à bem pouco tempo aquele que penso ser o único lançamento dos desconhecidos Arizmenda, intitulado “Within the Vacuum of Infinity”.
Na minha modesta opinião, é um óptimo apanhado de toda esta vertente mais espectral e primitiva do Black Metal. É um esforço ambiental, espacial, mas não é um espaço estreito e de vistas curtas, mas sim de um panorama gigante, de uma imensidão celestial onde a neblina encobre o infinito que se estende por diante.
Riff após riff, o som modela-se e a cada mudança é um clímax. O facto de tudo assentar num trabalho de percussão minimal, de mera marcação e guia, acentua todas as mudanças por mais ténues que sejam, tal como uma pincelada a branco numa tela preta.
E é uma comparação que faz todo o sentido. É um trabalho que facilmente invoca imagens e situações pictóricas. Imaginem-se perante a bruma num qualquer quadro de Friedrich. O desconhecido estende-se à vossa frente, maior que qualquer coisa que possam imaginar. O tempo é infinito, tudo converge para um ponto de fuga cuja terminação jamais alcançarão e só por esse prisma estamos imediatamente relacionados com uma noção de tempo que nos ultrapassa enquanto mortais, logo é um tempo e um espaço mítico. Este grau de indefinição e de desconhecido é imensamente mais interessante que o palpável e facilmente perceptível.

Em suma, se neste momento pudesse escolher um perfeito exemplo para vos mostrar o que seria o melhor Black Metal, sem dúvida que escolheria este trabalho.

Rabisco de André Coelho

7 Comments:

At 8.3.10, Blogger Hélder Costa said...

André o teu "rabisco" está excelente :)

Seria também interessante alguêm falar da influência que o black metal tem tido em projectos de dark ambient, drone, experimental...

 
At 8.3.10, Blogger \m/afarrico said...

Caro André Coelho,
Permita-me que o felicite, não só pelo tema que elegeu para esta sua prosa mas também pela forma como o fez.
Nós, os que não podemos ser nomeados, temos em grande estima bandas como Venom, Celtic Frost e Bathory (entre outras), que acompanhamos e moldamos desde a sua génese, como veículos de eleição na disseminação da palavra d’Ele, o nosso Maior.
Registo com agrado a negra sugestão que aqui nos deixa, enquanto lhe lanço, a si e a todos os demais, a seguinte questão que me parece pertinente: poderemos considerar que existe uma abordagem comercial do género? I.e., o que dizer de bandas como Cradle of Filth, Dimmu Borgir ou mesmo Dissection?
Com os meus melhores cumprimentos,
m

 
At 8.3.10, Blogger dan.te. said...

Agora vou ser obrigado a ir ouvi-los... :) Obrigado pela dica.
E de "rabiscos" nem vale a pena falar...

 
At 9.3.10, Blogger Susana Quartin said...

Arizmenda é muito bom.

 
At 9.3.10, Blogger Susana Quartin said...

(Agora vou passar o dia a pensar qual seria o disco que escolheria para mostrar a alguém o "melhor bm", à noite/amanhã digo qualquer coisa :P)

 
At 9.3.10, Blogger André said...

Caro Mafarrico (porra! Finalmente disse isto numa frase dirigida a alguém!):

Que o legado de Bathory e Celtic Frost vivam eternamente!

Quanto à questão de uma abordagem comercial do género... abordagens comerciais existem em todos os géneros, assim como abordagens menos comerciais. A dúvida surge quando queremos definir o que é algo "comercial". Trata-se de uma abordagem menos desafiante em termos musicais e desde logo mais segura no que diz respeito aos gostos de uma maioria, ou estaremos a falar de um nível promocional a que algumas bandas e músicos chegam e onde existe uma preocupação com os fins lucrativos (seja através da musica ou através de produtos alusivos à banda)?

Sinceramente, no meu caso específico, tento nunca me preocupar demasiado com essa questão do “comercial”. Interessa-me que a musica seja interessante acima de tudo, que me diga algo, que me cative. Deste modo, a questão dos rótulos que colocamos nas coisas acaba por funcionar muito mais como uma forma de nos guiarmos num universo tão saturado de propostas musicais. Não faço do Black Metal, por exemplo, uma filosofia de vida, mas sim um termo que serve para identificar um conjunto de propostas com determinadas características. Daí, se alguém me disser que Cradle of Filth é Black Metal, não me sinto ofendido, mesmo não gostando da banda.

Pegando agora nos exemplos que citaste, tanto Dimmu Borgir como Cradle of Filth são duas bandas que tomaram um caminho de “comercialidade” em ambos os sentidos que referi acima. São bandas em torno das quais gira um universo de lucro, de merchandising que é necessário vender, um grau de exposição que é necessário alcançar. Não é por esse prisma que devemos julgar se a musica deles é boa ou má. Posso dar-vos um exemplo simples: devemos dizer que o “Master of Puppets” é um disco mau apenas porque a banda enchia estádios e vendia t-shirts e afins aos montes? (e sim, nessa altura já o fazia!) Darkthrone também tem t-shirts e se calhar vendem bastante para o som que fazem. Será que por isso são já lixo comercial? E Sunn O)))? Não os poderemos considerar como banda comercial, tendo em conta a quantidade de merchandising que tem e a quantidade de discos que fazem?

No caso de Dimmu Borgir e CoF, o que me fez afastar foi apenas o facto de a sua música não me interessar. Nunca fui grande fã de CoF, sempre achei que tinham um som demasiado irritante e exageradamente floreado. Sempre preferi coisas simples, ou se houvesse complexidade, que esta não fosse apenas um adorno ou arranjo na música. CoF é sem duvida uma banda demasiado Rococó, se é que me entendem. Dimmu Borgir pelo contrário, conseguiam gerir bem as suas composições e haviam alguns momentos com os quais me identificava, mas perderam um pouco o impacto ao longo do tempo e muitos dos últimos discos soavam já a cansaço (no sentido em que a formula se havia repetido até ao ponto da exaustão).

Da mesma forma que falo destas bandas, também te posso apresentar o reverso da medalha e afirmar convictamente que a grande maioria do Black Metal dito “underground” não passam de cópias mal executadas de formulas clássicas do género, mas onde já não existe a vontade desafiadora de mudar e evoluir, assim como se denota a incompreensão dos valores intrínsecos ao género e que mesmo numa abordagem mais conservadora ou “retro” tudo acaba por soar insípido e inofensivo. Arizmenda, a meu ver, consegue pegar na fórmula e extrapolar os seus conceitos base, tornando-se quase num pequeno manual de como fazer as coisas bem feitas.


Não sei se te respondi… sorry…

 
At 9.3.10, Blogger \m/afarrico said...

Caro André (finalmente dirijo-me desta forma a alguém que não à minha pessoa, se bem me entendeis...)
Comungo e partilho da V/ abordagem perante a questão da “comercialidade” da música, nomeadamente no âmbito de géneros musicais, que na sua génese, tem a premissa da ausência da mesma como uma condição necessária (mas suficiente?).
Uma banda não deverá ser considerada “vendida” só porque enche salas (já nem digo estádios...), da mesma forma que não pode basear a sua atitude anticomercial numa série de clichés posers arrancados à força pela indústria discográfica.
Na verdade, a necessidade de profissionalização das bandas como garante de subsistência único dos seus integrantes, parece fazer com que estes acabem por assumir certos e determinados standards da referida indústria, na qual e por razões de eficiência e rentabilidade, não haverá tanto espaço assim para diversidade e originalidade. E como disse o nosso comparsa Infernal Lemmy Kilmister, “se retiramos todos os adornos, atitudes e discursos o que todos querem é vender, somos todos comerciais”.
Actualmente a oferta é tal, neste e noutros géneros, que se torna premente encontrar referências que nos orientem por entre o banal sobre-produzido, o amadorismo camuflado de atitude e as cópias das cópias como tão bem referis. É por isso que, apontamentos como o V/ são de extrema utilidade para aqueles que vivem a musica como parte integrante do seu dia-a-dia, radicalismos à parte.
Irei portanto dar uma oportunidade a estes Arizmenda de se apresentarem na Masmorra Infernal do Sr. Satanás e assim atestar do seu verdadeiro valor e aferir da justeza das V/ palavras.
Com os melhores cumprimentos,
m

 

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