18 maio, 2010

Apichatpong Weerasethakul


Dados os acontecimentos recentes na Tailândia, um post recente a ligar cinema a lugares e conflitos distantes, e após visionar uma das suas mais recentes curtas-metragens, lembrei-me de escrever um pouco sobre este realizador tailandês cuja curta obra é certamente uma das mais interessantes do cinema contemporâneo. Com apenas 4 filmes de ficção de longa duração em nome próprio (o 5º estreia agora em Cannes), filmados à margem da indústria cinematográfica tailandesa e com vários problemas com as autoridades da censura, Weerasethakul, conseguiu criar um espaço completamente único no panorama do cinema actual.


Tematicamente é inventivo, focando temas de sexualidade, crenças e mitos, memória, tradição e imaginário onírico, entre outros ingredientes à mistura. A sensação que fica ao ver os filmes dele é que existe algo por detrás do (ou imanente ao) filme, algo que só é percepcionado há medida que o filme se vai desenrolando (e perdura muito tempo após, mas só como uma sensação) e nem sempre, penso que propositadamente, inteligível. As narrativas deixam de ser importantes (muitas das linhas da narrativa e relações entre as personagens iniciam-se mas não chegam a desenrolar-se ou sequer a ter conclusão, pelo menos fisicamente perante os nossos olhos) e abre-se o espaço (físico e temporal) para absorver tudo o resto, havendo mesmo uma sobreposição vertical, tal camadas, de ideias e sentimentos. Como diria, Henri Langlois, vai para lá da quarta dimensão. De destacar também a forma como filma os espaços, os jogos interior-exterior e a relação das personagens com estes, incluindo uma ligação especial à natureza. Utiliza frequentemente não-actores e joga com alguns ambientes e condições (incluindo da construção fílmica) tal como são, criando por vezes um misto de documentário e ficção (veja-se a primeira longa metragem “Misterious Object at Noon” (2000).


Bem, não vale a pena estar a escrever muitas palavras pois é difícil de descrever de forma fidedigna os filmes de Weerasethakul – ou seja, é vê-los! Em DVD, em Portugal, existe apenas “Febre Tropical” (prémio do júri em Cannes 2004). Em Inglaterra encontram-se os DVDs de “Blissfully Yours (prémio Un Certain Regard, Cannes 2002) e “Syndromes and a Century” (2006). De destacar também, de entre as dezenas de curtas dele, a contribuição para “O Estado do Mundo” (2007), um dos melhores da série de mini-filmes encomendados pela Fundação Calouste Gulbenkian da qual faziam também parte filmes de Pedro Costa, Chantal Akerman entre outros – já passou na tv2 e no Curtas de Vila de Conde.


Fica o trailer de “Syndromes and a Century”:





E o trailer de “Tropical Malady”:



7 Comments:

At 18.5.10, Blogger Palmas pra Cena! said...

Sem dúvida, um dos melhores Realizadores da actualidade!Basta visionar o "Febre Tropical" para perceber porquê.

Ansioso por ver o novo!

 
At 18.5.10, Blogger ::Andre:: said...

Conheço pouco cinema asiático, inclusive ainda preciso de investigar alguns mestres e este é mesmo um daqueles nomes que acho que nunca ouvi falar. Vou procurar o Febre, fiquei muito curioso.

 
At 18.5.10, Blogger Pereira said...

Ele é muito bom, 'tou curioso para ver o novo.Mas há um tailandês que prefiro : Pen-Ek Ratanaruang. O Last Life in the Universe é dos meus filmes favoritos...

 
At 21.5.10, Blogger ::Andre:: said...

Só para dizer que o Pedro Agra é o maior!

 
At 22.5.10, Blogger Luis said...

Mini-recensão ao novo de Apichatpong estreado em Cannes no Público online: http://ipsilon.publico.pt/Cannes/texto.aspx?id=257286

Quando sairá em DVD para se poder ver por cá?....ou com alguma sorte ainda ganha algum prémio e estreia por cá (nem que por uma semana).

 
At 23.5.10, Blogger Luis said...

Palma de ouro em Cannes para o novo de Apichatpong "Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives". Vai aumentando o reconhecimento deste grande (novo) realizador.

 
At 25.5.10, Blogger apf said...

a chantal é uma das minhas grandes referências! do Weerasethakul curti muito o syndromes, tem humor em poucas partes e beleza em muitas. trabalhar com não actores muitas vezes funciona melhor, olha o caso do carlos reygadas. vejam também o trabalho do brillante mendoza, que por acaso esteve cá em fev. na culturgest de lisboa. é simplesmente fantástico.

 

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