24 janeiro, 2011

Presidenciais, o rescaldo

Cavaco ganhou. Ok, nada de surpreendente. 52,94% dos votos, vá lá, já deixa tirar algumas conclusões. Mas mais de 53% de abstenção? Mais de metade dos eleitores portugueses decidiu não ir votar. Mais de metade dos eleitores portugueses decidiu não ir votar quando o país atravessa uma das maiores crises de sempre. No post abaixo falava da descrença na classe política, mas uma coisa é descrença, outra coisa é inércia. Nem este simples gesto de colocar uma cruz (ou não) num boletim tem significado.

Leio opiniões dos que se abstiveram do voto, a defender a sua posição visto que esta é igualmente uma forma de manifestar a sua insatisfação. Mas enganam-se: não votar é denegrir a democracia, é denegrir a memória de quem sofreu para que esta existisse, é vilipendiar todos os fundamentos da liberdade. Porque depois querem-se queixar que têm um Estado que não responde às suas exigências e necessidades mais básicas. Não se queixem, porque em último caso foram vocês que assim o escolheram.

Se não querem viver em democracia, há alguns países por esse mundo fora que vos podem acolher. Se querem democracia, mas estão insatisfeitos com a classe política, envolvam-se no activismo político e tentem vocês dar início à mudança. Agora uma coisa é certa: não votar não é um manifesto, é desistir covardemente. De vocês e de quem vos rodeia.

70 Comments:

At 24.1.11, Blogger jorge silva said...

a partir do momento que comecei a ganhar consciência política, comecei a abster-me de participar no circo eleitoral, com excepção feita aos referendos porque, aí sim, acho que isso é uma forma de democracia mais directa.
compreendo e aceito quem opta por ir votar em branco ou fazer um voto nulo mas, para mim, isso já é participar em todo o circo. é dar a minha conivência com o facto de se desperdiçar balúrdios em campanhas quando, ainda mais agora, vejo apoios a serem cortados, subsídios anulados e verbas a desaparecerem. só em situações extremas acredito no conceito de voto útil e, francamente, ainda não vi nenhuma dessas situações. não deposito a minha confiança em formações partidárias e sempre achei que um voto meu num programa alargado de governação, que depois não será cumprido, seria o mesmo que passar um cheque em branco a alguém em quem eu não confiava.
já ouvi vezes sem conta, e compreendo a lógica, o argumento de que quem não participa depois não tem o direito de queixar-se mas, para mim, a questão é a inversa: como é que podem participar nisto e depois queixarem-se de terem sido ludibriados?
para nos envolvermos no activismo político precisamos de acreditar nas pessoas, na massa humana de uma forma geral, e isso é uma qualidade que apenas possuo vagamente nos meus dias melhores. nos restantes apenas o niilismo subsiste e a crença (profunda) na estupidez humana e na nossa capacidade de nos enterrarmos mais ainda.
achas que é desistência? eu chamo-lhe desencantamento e realismo e estou sempre à espera de estar errado e não, não serei eu o líder nem o mártir nos projectos de ninguém...

 
At 24.1.11, Blogger Miguel said...

Para ti exercer a democracia é votar? Bom, então tens a democracia que mereces e o cavaco fica-te bem...

 
At 24.1.11, Blogger João Veiga said...

Jorge Silva, então e nos referendos não se gasta dinheiro nas campanhas? :P

 
At 24.1.11, Blogger Scometa said...

Miguel, a democracia é um sistema político acente no princípio da autoridade. O Estado, por princípio, é um representante da tua autoridade enquanto cidadão eleitor, e os políticos são a voz da tua autoridade. Isto eu sei que é muito bonito e só funciona em teoria, mas de facto a primeiríssima forma que tu tens de exercer ou fazer parte da democracia é votando.

Jorge, juro-te que não consigo compreender a tua posição. Compreendo e estou de acordo com muito do que dizes, muitas vezes dou por mim abismado com a inépcia da generalidade do ser humano. O problema do dinheiro das campanhas (que é só um dos muitos problemas que assolam as democracias de hoje) é a de que estes políticos que temos sabem bem como ganhar os votos dos menos educados. Para isso faz-se folclore e marketing barato porque a maior parte das pessoas está-se a cagar para as grandes questões.

De qualquer das formas, respeito a tua forma de pensar, mas não concordo. Não consigo ver como o acto de não votar pode ser uma forma de protesto ou de não-conivência.

 
At 24.1.11, Blogger  said...

Acho curioso que a única forma de protesto a que a maioria dos portugueses aderem é aquela que não implica qualquer tipo de esforço.

Não é por ficarem em casa a ver a matiné de domingo na SIC que as coisas vão mudar.

 
At 24.1.11, Blogger Ricardo Guimarães said...

Scometa, importaste que copie o teu texto e o coloque numa página? As tuas palavras assentam que nem uma luva ao que penso da abstenção.


Não votar não é uma forma de protesto.

Por vezes as pessoas parecem que se esquecem a quantidade de pessoas que morreram para que fosse agora possível nós pudermos votar, ou ainda mais, todas as pessoas puderem votar.


Pior que não votar para mim é ainda dizer que é uma forma de protesto, mas como tudo, tenho que respeitar ou aceitar pelo menos.


Enquanto o voto em branco não tiver um significado visivel na actuação do governo, muitas pessoas vão continuar a abster-se infelizmente.


Ao menos,e não tenho problema nenhum em dizê-lo votei em branco porque fi-lo com a consciência limpa e sei que assim, na minha percepção pessoal, estou a mostrar a minha indignação e veto a toda a "politica" (e sim, é politica com p minúsculo) praticada em Portugal.


Enquanto o português continuar saudosista com o Cavaco, ele irá ganhar todas as eleições em que participe enquanto for vivo.


Raio de País, caraças.

 
At 24.1.11, Blogger vera viana said...

se a abstenção e os votos em branco ou nulos expressarem a maioria da vontade da população, o que é que acontece? acham que os políticos eleitos vão repensar as suas atitudes e reflectir seriamente no que é que isso significa?
viver em democracia é, sobretudo, respeitar a liberdade de cada um agir como quiser, desde que isso não colida negativamente com os outros (o tal imperativo categórico). o facto de eu não votar por não acreditar em nenhum destes políticos não me torna menos cidadã do que qualquer outro que tenha votado. e se quiser reclamar, reclamo, até porque não contribuí activamente para o que nos descontenta, embora eu não o faça por já nem sequer acreditar na classe política a esse nível.
sobretudo, lamento que não se respeite a liberdade de não votar, acusando-nos de tudo e de mais alguma coisa, inclusive de cobarde, que chego a considerar ofensivo. respeitarei qualquer pessoa que vote seja em que candidato for (sim, mesmo que de ideologia anti-democrática), e, igualmente, quem não queira votar ou vote em branco. ninguém se deveria achar no direito de vilipendiar a decisão de quem quer que seja. em democracia exige-se, sobretudo, o respeito pela diferença.

 
At 24.1.11, Blogger Ricardo Guimarães said...

Eu só não acho que não votar é uma maneira de mostrar descontentamento com a politica em Portugal.

Lamento, mas o protesto envolve uma acção, e a abstenção é uma não acção.

O facto de os políticos ao verem um grande numero a nível de abstenção ou de votos em branco, não mudarem nada mesmo assim, não quer dizer que de fora as coisas sejam interpretadas doutra maneira.


Aliás, basta ir ver os títulos dos jornais internacionais e ler como eles interpretaram a eleição de ontem.


Como infelizmente me disseram ontem, e não generalizando, mas sim vendo mais como uma tendência:

Abstenção é a voz da Juventude.

 
At 24.1.11, Blogger André Forte said...

a partir do momento em que te dão a liberdade de votar, dão-te a opção de o fazer e de o não fazer. o exercício da democracia passa também por saber se queres realmente dar a tua opinião ou um voto a alguém.

exagerando (talvez muito) as posições de "não ir votar é inércia", começamos a obter aquele tipo de posição que é a de assumir que quem não vota até merecia ser multado (sendo isto um completo atentado à liberdade).

Por outro lado, assumir que só pelo voto nos expressamos politicamente é rejeitar um dos princípios mais básicos daquilo que é o ser humano. O ser humano é sempre político (e aqui pode fazer-se aquela distinção que os ingleses tanto gostam entre policy, que é o que os "tipos de poleiro" fazem, e politics). Porque é que a abstenção não há-de representar em si mesma um acto político, nem que seja o total desprezo pelo sistema?

Aliás, a minha grande pergunta é: com que moral é que um presidente continua a declarar-se presidente de coisa alguma quando nem metade das pessoas o acreditaram? Sabiam que para um referendo ser aprovado é necessário que, no mínimo, vote 50% da população? Para eleger um presidente, basta um voto, caso toda a gente se abstenha. Isto parece-me mais triste do que 60% de abstenção.

 
At 24.1.11, Blogger jorge silva said...

joão veiga: óbviamente que sim mas, como disse, encaro o referendo, apesar de tudo, como uma forma de democracia mais directa.

ricardo guimarães: ainda uma boa parte do pessoal que aqui pára não tinha nascido e já me ensinavam a importância de haver eleições livres, e quem mo ensinava era alguém que teve de lutar para poder votar. no entanto, eu sou crescidinho e sei pensar por mim e tenho as minhas póprias convicções e garanto que não me faz mossa se as compreendem ou não.

andré forte e vera: subscrevo completamente

 
At 24.1.11, Blogger Ricardo Guimarães said...

Eu expressei a minha opinião e tu expressaste a tua. Se tu és crescidinho, ainda bem que o és. Parto do princípio que também sou crescidinho quando fundamento e expresso a minha opinião.

 
At 24.1.11, Blogger Tiago said...

A abstenção demonstra descontentamento? Isso é relativo, eu posso não fazer a mínima ideia de quem é candidato, ou não percebo nada de política e nem vou lá. É relativo, isso. Ao menos com o voto em branco ou nulo fui lá ser sincero, mas também podia ter lá ido votar no Coelho para a palhaçada. Não podemos andar a fazer suposições acerca das pessoas.
Agora se eu tenho a chance de ir lá dar uma opinião porque hei-de eu rejeitar isso? Queria ver se voltavamos à idade média em que as mulheres nem tinham direito ao voto, se não vinha toda a gente reclamar agora.
Agora, o ponto fulcral: também sei que por abstenção não ajuda em nada. Abstenção tão grande transformada em votos, brancos ou nulos, e a história poderia ter sido diferente. Pelo menos sabíamos que Portugal se preocupava.

 
At 24.1.11, Blogger Tiago said...

E concordo, percebo e respeito com muita coisa que vocês dizem, outras não. Estou como o Scometa.

 
At 24.1.11, Blogger vera viana said...

eu sei porque é que não votei e tenho as minhas convicções, que são tão válidas quanto quem vota. se os outros não foram votar porque tinham mais do que fazer ou porque não se interessam, eu não tenho nada a ver com isso. e dizer que quem se absteve é porque não tem consciência política é falacioso.
digam-me o que teve mais expressão: se os 53,37% de abstenções ou os 4,26% de votos brancos; e se tivesse sido ao contrário, se isso teria alterado alguma coisa... bottom line, isso ia adiantar o quê?
Tiago, o argumento do sufrágio feminino é algo estranho e vagamente ameaçador, mas acho que já nem para as criancinhas (e, por curiosidade, só em 1931 é que as mulheres em portugal puderam votar).
eu não estou a discutir com ninguém por ter ido votar em quem quer que seja nem tenho o direito de o fazer - respeito a opinião de quem vota e não discuto a razão porque outros não o fazem, porque isso é anti-democrático!

 
At 24.1.11, Blogger Scometa said...

Não foi nem é minha intenção insultar ninguém, como devem saber. Este post é por um lado uma forma de indignação, e por outro quis realmente criar alguma celeuma, porque parece ser só assim que as pessoas se sentem motivadas a participar e discutir.

André, o animal político precisa de treino. Quando Aristóteles cunhou essa expressão, ele queria mais referir-se aos cidadãos que habitavam a polis e em como nas suas observações o Homem de facto se constituia como tal em sociedade.

Custa-me (mas volto a insistir que respeito) ver as pessoas usar o termo "liberdade" para dizer eu tenho liberdade para não votar, para me abster. Para mim o voto deveria ser um dever e não um direito. Deveria dar direito a multa não ir votar, porque considero que é um atentado bem maior à minha liberdade eu ir votar para tentar mudar um sistema que sei que irá interferir cada vez mais com a esfera da minha vida privada e social (logo interferindo com a minha liberdade individual) e perceber que não o consigo fazer porque as pessoas se abstêm de votar. Isso para mim é um maior atentado à minha liberdade do que ser multado.

A liberdade de não agir em sufrágio, como tanto se defende aqui, e este elevadíssimo abstencionismo não revelam, na sua maioria, uma acção em consciência. Eu posso discordar da Vera, do André e do Jorge, e discordo fortemente, mas reconheço que o fazem em consciência, ao contrário da grande maioria dos abstencionistas. A democracia também poderia ser isso, ser o espaço onde a liberdade de não votar não teria grande importância. Mas vocês sabem que tem. E também sabem que a maior parte das pessoas não foi votar porque simplesmente não quer saber. E se eu pensar em Derridas e na questão do Outro, quando eu deixo de querer saber do outro, perco aquilo que me torna humano. E que mundo é este, em que já ninguém quer saber de nada?

 
At 24.1.11, Blogger Scometa said...

E Vera, nunca será anti-democrático criticar alguém. Deixar de o fazer é que talvez seja.

 
At 24.1.11, Blogger vera viana said...

a mim parece-me que já se discute, ainda que veladamente, que, se a abstenção tivesse sido menor, Cavaco não seria presidente, depreendendo-se que quem não votou, votaria contra ele. a ser assim, a discussão já tem contornos político-partidários, quanto a mim, absolutamente dispensáveis.
e, Scometa, não me refiro ao acto de criticar como anti-democrático, mas sim ao acto de censurar opiniões diferentes e de agir em conformidade.
e discordo de tal modo com a sugestão de multar quem não exerce o direito de voto que me vou abster de comentar.

 
At 24.1.11, Blogger ::Andre:: said...

Consigo perceber ambos os lados, a revolta do Eduardo e a descrença da Vera. Já pensaram que se calhar o sistema é que está mal feito e precisa de alterações? Quando mais de metade dos eleitores se abstém eu acho que isto devia ter um peso influente na altura das decisões. O país não é composto por votantes e não votantes, algo devia ser alterado. Não me perguntem o quê ou como, deixo isso para quem sabe. E no fundo os dois posts do Eduardo estão relacionados: estamos todos cansados e fartos ao ponto de praticamente desistirmos do país.

 
At 24.1.11, Blogger Tiago said...

O das mulheres nem foi argumento nenhum, foi algo que me passou pela cabeça, só acrescentei, nada mais. Não era para ser ofensivo.
Eu percebo o ponto vista, até porque sei de pessoas que votaram sem se basearem devidamente na informação a que deve o voto, isto não é só as campanhas, é muito mais do que isso.
E eu percebo porque tu não votas, Vera. Argumentas válido e eu compreendo perfeitamente. O preocupante é´que quase de certeza que as pessoas que não votaram é porque se estão mesmo a marimbar, e nem todas pensam assim.
Mas por mim está mais que debatido, isto. Nada mais a acrescentar.

 
At 24.1.11, Blogger Ricardo Guimarães said...

Eu só farto de ver, ainda o pessoal que vota nos candidatos, não os que votam em branco, em alinharem sempre na mesma lenga-lenga.

E agora, lembrei-me duma coisa: Para mim, a abstenção seria algo benéfico, quando ao atingir uma determinada percentagem, a votação não fosse considerada legítima pela fraca percentagem de votação.

 
At 24.1.11, Blogger andré vieira said...

Quantos são os votantes que sabem por que é que votaram em determinado candidato?

Pegando na discussão de definição de democracia há várias questões que podem ser lançadas. Mais do que justificarmos a elevada abstenção com uma possível inércia por parte da população que não foi votar, temos que parar e pensar se não existem outros motivos para isso acontecer.

Porque, da mesma forma que eu acredito que há uma fatia da população votante que não sabe em quem está a votar, admito que muitos dos que não votam não o fazem por serem cidadãos apolíticos.

Será melhor votar sem consciência ou não votar convictamente?

Não me parece bem afirmar-se que votar é uma obrigação e justificar-se a abstenção como uma posição daqueles que não acreditam na democracia e que, mais do que isso, estão a contribuir para o seu fim.

Eu fui votar porque achei que tinha motivos para o fazer. Contudo, acredito que um sistema democratico tem que deixar em aberto a possibilidade de escolha num candidato, de se votar em branco ou mesmo de não se ir às urnas.

E não acredito que a abstenção dite o fim da democracia ou revele inércia por parte da população. Do mal o menos, à margem daquilo que os políticos possam representar, o ideal é continuarmos a viver num sistema democrático onde eu possa reflectir e escolher em quem quero votar ou então abster-me ou votar em branco sempre que entender que não acredito em nenhuma opção apresentada.

Bem vistas as coisas qual a leitura que se pôde tirar da campanha de todos os candidatos que nos pudesse ter elucidado em relação ao plano político de cada um?

Será por isso que a abstenção tem aumentado?

 
At 24.1.11, Blogger Alex said...

Votar é a maior forma de protesto que vocês podem ter. Não ir votar é abdicar do maior acto democrático que temos. Quem não vai votar não tem o mínimo de direito de criticar seja quem for.
Tenho dito.

 
At 24.1.11, Blogger Sor Flavius said...

Eu votei em branco. É aritmética simples para a minha parca consciência política; se não vejo nenhum candidato capaz de assumir o lugar oco de Presidente da República então o meu voto vai naturalmente para lado nenhum. Mas voto, exerço o meu direito e cumpro o meu dever.

Estes 50% de abstenção mostram-me duas coisas e até que algum analista político me ensine política a minha visão será esta: O povo português não está educado para a democracia. Se estivessem iriam votar e se pensassem como eu então a percentagem de votos em branco seria de 50 % e o vacuo concorreria na segunda volta contra o Cavaco; e, por outro lado, o povo português sente que o nosso modelo político está esgotado e que, como tal, não tem de sair de casa com o frio que está para ir votar.

O Cavaco é o presidente de apenas um quarto da população eleitoral e não o presidente de todos os portugueses. E é fácil, quando tudo corre mal, dizer-se 'eu não votei nele, a culpa é de quem levantou o cú do sofá e foi votar nele'.

Yeah, right...

 
At 24.1.11, Blogger andré vieira said...

Então traduzindo o vosso raciocínio (Sor Flavius|Alex), a vossa ideia de democracia é a de que quem não votou tem que ficar caladinho. Parece-me democrático sim senhor!

 
At 24.1.11, Blogger Sor Flavius said...

Já estou arrependido de ter comentado...

Não, ninguém tem de ficar caladinho. Longe disso... Só acho que é uma posição confortável de se estar não se ir votar.

A minha ideia de democracia não ficou explicíta em lado nenhum do meu comentário e não li o do ALex.

Com isto, andré, traduziste mal o meu raciocinio. Mas isso também é democrático!:)

 
At 24.1.11, Blogger andré vieira said...

Sor Flavius Como é óbvio usei de alguma ironia porque sei que podes responder e dizer que a minha leitura está errada.

De qualquer forma aproveito para dizer que apesar de a tua aritmética ter alguma lógica não faz nenhum sentido para a contabilização dos votos, já que a Comissão Nacional de Eleições considera o voto em branco como nulo. Ou seja, nem que tivesse mais de 50% o candidato que tivesse mais votos venceria as eleições.

Por isso, na prática o voto nulo e a abstenção vão dar quase ao mesmo. Pelo menos no que toca a resultados. Porque numa segunda leitura poderia dar azo a outras interpretações. Mas não passaria disso. Pelo menos no sistema que temos agora.

 
At 24.1.11, Blogger priscilla fontoura said...

uma coisa é certa: entre votantes e não votantes (participantes deste blog) existem opiniões relevantes tão díspares que fazem sentido serem debatidas. fui votar porque acho fazer mais sentido mostrar a minha desilusão com um voto em branco do que manter-me calada. tenho a consciência de que há países politicamente anti-democráticos cujas minorias ou maiorias lutam por se fazerem ouvir. mas isso é a minha consciência que me faz mover a uma urna.

por outro lado, quanto a mim, quem não foi votar tem igualmente o direito de não o fazer, não fôssemos um país chamado democrático. quem prevê multas a quem não vota e outras coisas mais encaixa-se em ideais que uma sociedade democrática tem de combater, a falta de liberdade de escolha.

 
At 24.1.11, Blogger Sor Flavius said...

"Ou seja, nem que tivesse mais de 50% o candidato que tivesse mais votos venceria as eleições."

Sim, eu sei. Foi a minha tentativa de ironizar a situação! Shame on me... :)

Eu acho que essa tal segunda leitura daria claramente azo a outras interpretações. Se passaria disso já não sei... Como disse acima, não percebo nada de política. 'Desta', pelo menos..

Hugs

 
At 24.1.11, Blogger Alex said...

André podes ter a certeza que é muito mais democrático do que não ir votar.
E é claro que pode falar quem não foi votar, mas não é comigo de certeza.
Eu não discuto política com quem não vota.
O português tem memória curta, é esse o problema.

 
At 24.1.11, Blogger Scometa said...

Então a obrigatoriedade do voto é um atentado à liberdade de escolha? E a abstenção é o quê então? É meramente um exercício dessa liberdade? Não consigo compreender esse paradoxo. Imaginemos que isto era legislativas e era eleito um partido de extrema direita. Daqui a um ano estariamos com menos direitos e menos liberdades, mais repressão social, discriminação e a óbvia xenofobia. Estariamos a ver cortes fiscais aos grandes empresários e os nossos rendimentos baixarem. Estariamos a ver um SNS cada vez mais tendencialmente privado. O mesmo com a educação. O mesmo com o estado social. O mesmo com a liberdade de escolha, de expressão e de uma imprensa livre.

Conseguem fazer o exercício? Foi a vossa liberdade de escolha que ditou que deixassem de a poder ter. Melhor ainda, foi a liberde de escolha de quem decidiu abster-se que permitiu ao eleitorado mais velho e reaccionário condicionar a minha liberdade de escolha. Se isto pudesse ser evitado com a obrigatoriedade do voto, com direito a multa (não estou a falar de prisão, nem que a multa fosse 10€), não teria sido preferível a que essa liberdade de escolha que dizem ser apanágio de uma democracia, tenha sido em plena ironia a causadora da destruição da mesma?

 
At 24.1.11, Blogger Scometa said...

André Vieira, só para dar uma outra "luz" à tua ideia de abstenção ou voto sem consciência. Tu estavas ciente da não-consciência de muito do eleitorado, certo? Por isso, talvez, tenhas ido votar. Porque percebias qual era a tendência de voto que essa parte da população tem. Sentiste o dever de tentar evitar que isso acontecesse, porque se calhar no fundo também não querias que a grande maioria das votações acabasse como acabaram. Portanto, só posso concluir que para ti e para todos os que votam em consciência, é bem mais grave os que se abstêm do que os que votam sem consciência, ou melhor, o conhecido voto do bacalhau

 
At 24.1.11, Blogger jorge silva said...

dizer que a ascensão de um partido de extrema-direita ao poder é sempre fruto de um eleitorado velho é um erro. achas mesmo que toda a juventude é de esquerda e revolucionária? olha para o resto da europa, quando as crises apertam parece-te que é só uma faixa etária que faz a extrema-direita subir, ou até que é só uma classe social? isso é aquela ilusão ridícula do proletariado progressivo e revolucionário! agora sou eu que digo, tirem o cú das confortáveis cadeiras em frente dos vossos computadores e vão para as fábricas e vejam o mundo real!!!
o partido nacional socialista dos trabalhadores alemães obteve 44% dos votos nas últimas eleições em que participou em 1933, achas que a culpa foi dos abstencionistas? ou foi do grande iluminismo democrático de quem votou?

o sistema democrático actual é uma piada. eu não vejo alternativas e não me revejo em ninguém. voto útil? já falei acima sobre isso! parece-vos que o presidente eleito terá algum peso na consciência por saber que foi eleito por menos de 1/4 da população votante? acham que algum dos candidatos no lugar dele diria "desculpem, mas eu recuso-me a ocupar o cargo porque ele não reflecte a escolha da maioria dos meus concidadãos"? não me lixem!

andam para aqui uns amargos de boca ridículos! agora a culpa dos resultados é dos abstencionistas. faz lembrar certos regimes que apontam o dedo aos críticos e os acusam de querer a instabilidade.

...e alex, bons conceitos democráticos. é caso para dizer que a memória curta funciona nos dois sentidos!

 
At 24.1.11, Blogger priscilla fontoura said...

"Então a obrigatoriedade do voto é um atentado à liberdade de escolha?" neste caso o que pressupõe obrigatoriedade obviamente que atenta à liberdade. o que me parece é que o voto em branco deve ter o mesmo peso tal qual como tem o voto num partido qualquer.

 
At 24.1.11, Blogger Scometa said...

Priscilla, quando trabalhas és muitas vezes obrigada a pagar impostos. Há coisas na democracia que não vêm de mão beijada, e não é por isso que deixa de ser menos ou mais democracia, menos ou mais liberdade.

Jorge, estás a fazer comparações que não se adequam. Primeiro, tanto vale o voto de um "velho do restelo", o típico reacionário, como o voto iluminado do trabalhador quando vota em clima de medo e crise, porque o seu status social infelizmente não lhes permite ter capacidade para decidir logicamente. E entendam este infelizmente como a incapacidade da nossa sociedade em instituir de forma mais generalista uma educação que permita espírito e massa crítica. Uma sociedade que possa enfim ter um voto não manipulado pela falta de informação, um voto não comprado pelos discursos populistas e assentes no medo. Acho que o teu desencanto tem mesmo que ver com a descrença no ser humano, como dizes. Mas eu vejo a política como algo que deve ser meta-humana, feita por nós para nos proteger uns aos outros, e uns dos outros. Acho que é por aí que devias ver as coisas, em que o uso do voto não é participar em qualquer circo. Eles podem ser os palhaços, mas tu não és por votar, nem fazes parte de qualque circo por votar.

 
At 24.1.11, Blogger ::Andre:: said...

Jorge, já o disse em cima que compreendo a descrença, mas então no teu lugar como mudarias o sistema? De que maneira lutas pelo teu emprego pois ambos sabemos que só o profissionalismo não chega? E o futuro da tua filha? Sabemos que está tudo relacionado.. O sistema actual é uma piada, concordo contigo, mas quando o voto é o único meio directo e pessoal de fazer com que as coisas mudem o que podemos fazer?

 
At 24.1.11, Blogger Scometa said...

"Por isso, na prática o voto nulo e a abstenção vão dar quase ao mesmo. Pelo menos no que toca a resultados. Porque numa segunda leitura poderia dar azo a outras interpretações. Mas não passaria disso. Pelo menos no sistema que temos agora."

André, discordo mesmo muito disto. Se traduzissemos os abstencionistas por votos em nulo, a interpretação política seria completamente diferente. O presidente ou quem quer que fosse eleito nestas condições estaria condicionado à partida, porque estaria a governar no fio da navalha, e não na condição de que "não sei porque não foram votar, não sei se gostam ou não de mim, mas isso agora não interessa". As implicações políticas seriam demasiado amplas do que simples interpretações. Perceber isto é igualmente perceber porque é muito mais importante o voto nulo/branco do que o não-voto.

 
At 24.1.11, Blogger andré vieira said...

Por isso mesmo é que eu digo:
"Porque numa segunda leitura poderia dar azo a outras interpretações." Mas neste momento não é o que acontece.

 
At 24.1.11, Blogger andré vieira said...

Há aqui uma coisa que me parece mais importante do que estar a tentar relacionar a abstenção com a possível eleição de um regime de extrema direita. Porque como é óbvio esse tipo de raciocínio é baseado na adivinhação.

A abstenção foi elevada. É um facto. a partir daí teremos, se quisermos, que fazer uma interpretação para tentarmos perceber quais os motivos que levaram a que isso acontecesse. Partir do princípio de que as pessoas que ficaram em casa são cidadãos inertes e despreocupados, que não têm VOTO na matéria, é redutor.

Não será também legítimo afirmar que isso acontece porque a oferta não é lá grande coisa? Lá porque me oferecem duas coisas más eu não tenho que escolher uma só porque sim. Posso simplesmente recusar. Completamente legítimo.

Se a abstenção foi elevada é porque alguma coisa não está bem. E não apenas porque as pessoas estão-se nas tintas para o que os nossos pais ou avós fizeram para que fossemos todos OBRIGADOS a votar. Como é óbvio estou a ser irónico. Porque os nossos pais ou avós lutaram para que vivêssemos num país onde quem quer pode e tem o direito de votar e não para serem obrigados a escolher o menos mau de um naipe que nos é oferecido.

 
At 24.1.11, Blogger priscilla fontoura said...

"Então a obrigatoriedade do voto é um atentado à liberdade de escolha?" neste caso o que pressupõe obrigatoriedade obviamente que atenta à liberdade. volto a repetir -> NESTE CASO, ou seja, no caso do voto a obrigatoriedade pressupõe um atentado à liberdade. cada um decide livremente se deve ou não votar, nenhuma democracia pode obrigar um cidadão recenseado (como é óbvio) a votar. claro que somos regidos por leis: não passar o sinal vermelho do semáforo, pagar impostos, etc. o que está a ser discutido é a obrigatoriedade de votar, o que na minha opinião não tem (e ainda bem que não), claramente, de existir. agora como já disse creio que o voto em branco em termos de contagem deveria ter o peso que não tem, assim se sentiria em conformidade o descontentamento de quem vota em branco, porque nos termos em que esta escolha se apresenta agora acaba por não ter significado.

 
At 24.1.11, Blogger Scometa said...

"Há aqui uma coisa que me parece mais importante do que estar a tentar relacionar a abstenção com a possível eleição de um regime de extrema direita. Porque como é óbvio esse tipo de raciocínio é baseado na adivinhação."

Assim como é baseado na adivinhação o raciocínio contrário. Mais uma vez friso, a abstenção não tem rosto. Interpretas como quiseres, mas nenhuma das interpretações é válida. O que é válido é que, seja quem for o vencedor nestas condições, quem não votou é tão ou mais culpado do que os que votaram, digamos, num candidato de extrema-direita.

A luta dos nossos pais e avós, mais do que ser entendida como uma luta pela nossa liberdade em fazer ou não fazer isto e aquilo, deveria ser uma luta para que os filhos tentassem preservar aquilo pelo que eles lutaram. Estar constantemente a defender essa perspectiva da liberdade, é, acima de tudo, e à luz da crise actual, defender-se a si mesmo acima de tudo e de todos. A luta pela liberdade individual, e o egoísmo social que daí advém, é apanágio daquilo que vivemos hoje. Ninguém quer saber dos outros.

 
At 24.1.11, Blogger andré vieira said...

"Assim como é baseado na adivinhação o raciocínio contrário". Precisamente. Por isso é que não percebi a linha de pensamento e remeti para uma reflexão.

"deveria ser uma luta para que os filhos tentassem preservar aquilo pelo que eles lutaram". Continuo a achar, bem ou mal, que a abstenção não compromete a democracia.

Sublinho que fui votar e que acredito que a elevada percentagem da abstenção registada é preocupante. Não por entender que toda a gente deveria ser obrigada a votar e ao não o fazer está a contribuir para a morte da democracia, mas por acreditar que se calhar esta posição reflecte o panorama político que nós cá temos. E como é óbvio ninguém pode obrigar ninguém a votar só porque se não o fizer é anti-democrático.

Uma coisa é não ir votar "porque está frio" outra é acreditar que se tem motivos suficientes para não o fazer. Não me acredito que mais de metade das pessoas recenseadas não tenha ido votar só porque estava frio.

Ontem vi o Marcelo Rebelo de Sousa a afirmar que se devia discutir a obrigatoriedade de voto. Ele que há um tempo atrás votou contra isso mesmo. E isso ainda me deixou mais preocupado e indignado do que os valores da abstenção.

Como sabemos há pessoas que pensam de forma diferente da nossa. Então o que faríamos a um anarco-sindicalista português na altura das eleições? Teríamos que o multar porque tem uma ideologia diferente?

 
At 25.1.11, Blogger jorge silva said...

acho que todos temos consciência que, se fôssemos obrigados a votar e os votos brancos tivessem a representação que agora tem a abstenção, esses mesmos votos seriam considerados da mesma maneira que agora vocês vêm a abstenção - como algo sem valor... aliás, eu já ouvi esse tipo de discurso da boca de quem defende sempre um voto útil portanto, eis a vossa saída!...
o sistema, bem mais democrático, de uma fraca participação ou de uma nula (no sentido de em branco) participação ser capaz de anular o escrutínio nunca será implementado porque quem aprovasse essa lei (os deputados) já sabia que poderia sofrer com o resultado dessa aprovação. vejam a palhaçada do costume quando se debate congelar reformas ou limitar mandatos - é sempre para os que vierem depois! vocês acham mesmo que algum deputado aprovaria a hipótese de ser sancionado pela população em escrutínio?! ouçam os discursos "para encher" nas noites dos resultados: "a abstenção foi muito significativa e a classe política devia reflectir sobre isso". quando voltam a ouvir o assunto a ser mencionado? pois, na noite dos resultados seguintes. só!

andré: eu não sei como mudaria o sistema pelo simples facto de ter a convicção, como disse acima, de que a única maneira de poder criar pressão sobre a classe política e obrigá-los a ter mais seriedade não tem nunca hipóteses de ser aprovada. mudança com o voto? essa mudança é sempre pontual. na maioria dos países vive-se uma alternância de poder sempre com o intuito de manter o "status quo" e onde as soluções políticas implementadas por um partido bem podiam ser implementadas por outro. revoluções? quem me dera acreditar nelas! possuo uma visão bem desencantada de todas as que estudei! a seguir ao 25 de abril, quando os homossexuais portugueses se começaram a movimentar a pedir direitos, tiveram a resposta, pela televisão, de que a revolução não tinha sido feita para atender a "invertidos". porque é que me preocupo com isto se é algo que não me afecta? porque acho que, tristemente, diz tanto sobre a mentalidade das pessoas e sobre o facto de que, assim que passa o aperto, voltam todos à merda do costume.
consta que uma vez disseram de Bakunine que ele era "a pessoa ideal para ter por perto no primeiro dia da revolução, mas teriam de o matar no segundo dia"!
como é que eu concilio este meu pessimismo em relação à espécie humana com o facto de ser pai? não sei, mas tenho consciência plena de que foi um dos factores que me fez demorar a sê-lo...

 
At 25.1.11, Blogger Alex said...

Eu não me vou alargar muito mais.
A minha opinião sobre o voto completa-se com isto que vos deixo.
O discurso é do Miguel Sousa Tavares, podem não gostar dele, mas para mim é assim também que eu penso. Vejam a partir do minuto 26:34. São dois três minutos, não mais.
Assim me despeço, apelando sempre ao voto. Eu não vou deitar fora um direito pelos qual os meus pais e avós lutaram.

http://sic.sapo.pt/programasInformacao/scripts/videoplayer.aspx?ch=jornal%20da%20noite&videoId={BAC6E6DD-433B-4D56-97B0-D4D47B0C50DD}

 
At 25.1.11, Blogger Scometa said...

"Não me acredito que mais de metade das pessoas recenseadas não tenha ido votar só porque estava frio."

Não, nao foram votar porque estava frio. Não foram votar porque simplesmente nao lhes interessa. E faço uma interpretação completamente contrária, que foram muito poucos os que não foram votar com a consciência de um Jorge ou da Vera.

E continuo a achar que é tão legítimo eu dizer que é anti-democrático não ir votar (principalmente num clima destes) como vocês dizerem que é anti-democrático ser obrigado a tal. Quando referes o anarco-sindicalista, estás a falar de uma minoria, de alguém possivelmente elucidado o suficiente para, à luz dos seus principios, tomar uma decisão consciente do seu sentido de não-voto. Terá igualmente noção de que o seu peso numa sociedade sufragista como a nossa será muito inferior. E não, não é por ser de uma minoria, é por decidir não participar na vida política através do voto.

Quem me dera poder dizer que este abstencionismo foi consciente, pensado, reflectido e uma forma de protesto. Mas tenho a certeza que foi uma ínfima parte. Qual é a parte do "as pessoas não querem saber" que é assim tão difícil de entender? Não é só nem tão-pouco destas eleições que retiro estas conclusões. É de tudo o que se tem passado nos últimos anos, onde olho para uma sociedade apática com pessoas que só se preocupam consigo mesmo, que querem que o Estado tudo lhes dê sem nada lhes tirar, que querem viver num sitio onde quem importa são só eles e o seu futuro, sem nunca olhar para o outro e perceber que é no outro que nos completamos.

Esta é uma verdadeira discussão democrática.

 
At 25.1.11, Blogger *maps* said...

Os pontos de vista já foram tão ruminados... que até já estou confusa!!! Na minha modesta opinião, mais importante do que discutir ideais de voto, é teres noção da cidadania no teu dia-a-dia, seja lá qual for o teu entendimento bem como formas de actuação.

PEACE&LOVE FOR ALL

 
At 25.1.11, Blogger vera viana said...

no período quente do pós 25 de Abril, um familiar meu foi agredido por não ser de esquerda. parece-me que estamos a regressar a isso, mas num sentido diferente - há discussões e agressões (ainda que verbais, por enquanto), pelo facto de as pessoas se terem abstido de votar e fico pasmada com a ideia de se poder sequer pensar que o voto deva ser obrigatório. não foi por isso que tanto se lutou, como alguém já disse aqui.
o problema, ao fim e ao cabo, foi não ter ganho o Manuel Alegre? acham que isso iria adiantar alguma coisa? ou outro candidato qualquer?
surpreende-me que ainda alguém acredite em políticos e, pior ainda, que não se saiba que, de facto, o voto em branco ou a abstenção, por maiores que sejam, são e serão sempre inconsequentes...
deixemos cada um pensar como pensa, esperando que, em consciência, e não por alheamento. e mesmo nestes últimos casos, nunca o conseguiremos alterar, nem por força da argumentação ou da lógica, por mais evidente que seja.
e nunca será por obrigação que conseguiremos que as pessoas comecem a pensar.
e como é que mudamos este estado de coisas a um nível global? já perdi essas ilusões e a crença no bom senso da humanidade há muito...

 
At 25.1.11, Blogger jorge silva said...

desde o início desta discussão que eu também me questiono se os abstencionistas seriam tão criticados sendo outro o resultado eleitoral.
quando se vive em democracia temos de estar preparados para a população escolher mal e para que esta escolha contrariamente àquilo que desejaríamos.

 
At 25.1.11, Blogger Marcos said...

Só deitando mais uma acha para a fogueira, o motivo pelo qual não me abstenho por mais desiludido que esteja é que o grupo dos que se abstêm inclui tanto os que se abstêm de votar de forma consciente (entre os quais diversos participantes desta discussão) como os outros que simplesmente se estão nas tintas e não querem saber. Ficamos sem saber se os cerca de 53% de abstinentes não votaram como protesto ou se se estão "a cagar" para isto tudo...

 
At 25.1.11, Blogger vera viana said...

tivesse ganho o Manuel Alegre e ninguém estaria aqui a discutir esta questão.
haja honestidade para se reconhecer este facto...

 
At 25.1.11, Blogger priscilla fontoura said...

alguém uma vez disse "fascistas para o campo pequeno" quanto a mim iguala-se a: "se não querem viver em democracia, há alguns países por esse mundo fora que vos podem acolher"
entenda-se que viver em democracia não é votar obrigatoriamente. se alguém lutou para estarmos onde estamos hoje acredito que não tenha sido para o fazermos "por força nem por violência".
e concordo Vera, a minha interpretação é a mesma, embora não haja grande empatia entre mim e o Cavaco (ahahaha) concordo que o problema da questão talvez seja o facto do Alegre não ser o Presidente da República. conheço muita boa gente que se absteve e que está muito mais a par de política em comparação de outros que votaram.
corroboro esta terminação - "mais importante do que discutir ideais de voto, é teres noção da cidadania no teu dia-a-dia"
enfim... ainda bem que todos temos lugar para debatermos estes assuntos também :)

 
At 25.1.11, Blogger Saturnia said...

Passo a informar que este post já vai nos 49 comentários!

 
At 25.1.11, Blogger Scometa said...

Sim, eu sou um fascista. É exatamente essa a interpretação que se deve fazer daquilo que eu disse. Enfim, a crítica fácil, arremessar a arma do fascismo e da anti-democracia é um argumento altamente e bastante produtivo. É um pouco como usar sempre o holocausto para aquiscer as vontades de Israel. Mas não traz nada de novo à conversa. Continuemos a combater pelo direito à indiferença, porque foi para isso que se construi uma democracia. Liberdade para os que não querem saber, liberdade para os que não ajudam, merecem exatamente as mesmas coisas que os outros, não é? Afinal, todos nascemos livres dentro da constituição. Portanto, vamos retirar daqui, a titulo de exemplo, que eu sou livre para ajudar pessoas por cunhas e não por mérito. Eu como empregador é que sei quem vou colocar no posto de trabalho, portanto ài daquele que me julgue por eu lá colocar o sobrinho da irmã da minha mulher, que tem um QI de 78. Isto acontece, inclusivé, na função pública, onde as entrevistas de 15 minutos com um candidato valem 70% na avaliação global, uma forma muito elaborada de escolher as pessoas não por mérito, mas por outra coisa qualquer. Acham injusto? Azar, é assim que é viver em democracia. Não se queixem. Quem lutar contra isto é nada mais que um proto-tirano.

E estou com a Maps. A cidadania exerece-se no dia-a-dia, e a falta que vemos dela em todos os espectros da sociedade talvez seja reflexo daquilo que são 53% de abstenção.

 
At 25.1.11, Blogger Scometa said...

E como é óbvio, a abstenção seria muito mais discutida se tivesse ganho outro candidato qualquer. Disso podem ter a certeza absoluta.

 
At 25.1.11, Blogger andré vieira said...

Não consigo perceber muito bem de que forma é que a abstenção está relacionada com as cunhas.

Já que falas em contratação pública podemos partir do princípio, seguindo o teu raciocínio, que quem permite que uma entrevista para um cargo público pese 70 por cento na escolha do candidato a um emprego ou estágio foi o Zé Gravatas em quem as pessoas votaram. E esse, entre outros, é com toda a certeza um dos motivos para que muitos portugueses tenham ficado em casa no domingo.

Em jeito de brincadeira, posso aferir ainda que uma pessoa com o QI de 78 não tem direito ao emprego.

 
At 25.1.11, Blogger andré vieira said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 25.1.11, Blogger priscilla fontoura said...

se soubesses do que falava tinhas percebido que referi o episódio em que o capitão Otelo Saraiva de Carvalho - um dos capitães de Abril - quando chegou a Lisboa encantado com a luta heróica do povo cubano largou essa frase em alto e bom som: "fascistas para o campo pequeno". o sr. não deixou de ser um exemplo mas foi infeliz no que disse, realmente é muito civilizado declarar que os contra-revolucionários deviam ser fuzilados. o que é que se distingue afinal?

 
At 25.1.11, Blogger Scometa said...

O exemplo das cunhas não foi para relacionar com a abstenção, foi para tentar dar uma ideia de que os conceitos de liberdade têm o seu lado negativo. E como estava aqui a ser julgado por colocar uma opinião polémica quanto ao que entendo ser o direito ou dever de votar, achei por bem colocar outro exemplo daquilo que são as liberdades relativas com que nos debatemos todos os dias e que criam clivagens na esfera social.

Depreendo pelo teu segundo parágrafo que a abstenção é a forma das pessoas dizerem: "votam sempre nos mesmos, para quê dar-me ao trabalho?". Isto para mim é o cúmulo da indiferença, da tal falta de crença que as coisas podem mudar. É desistir.

Ainda hoje lia num jornal que os votos brancos não têm validade numa eleição. Que dava muito mais que pensar o elevado número de abstenção do que as pessoas terem ido votar em branco ou nulop, já que estes votos não contam para nada. Ora isto é uma mensagem brutal, é a mensagem de que, se eu não me revejo em nenhum dos candidatos, entao abstenho-me de participar nessa "coisa pública" que é o voto. Isto não podia estar mais longe da verdade.

 
At 25.1.11, Blogger vera viana said...

Scometa, se ainda acreditas que um outro político poderia alterar as situações incorrectas que relatas, ainda bem para ti. eu já não tenho dessas ilusões.
creio que por vezes a forma como defendemos os nossos pontos de vista podem ser mal interpretados, pela veemência com que o fazemos, daí a associação/interpretação que a Prscila fez das tuas palavras. quero acreditar que não defendes ideais fascistas, ilação que tiro a partir de outras coisas que disseste, mas discordo violentamente de alguns dos teus argumentos.
se a cidadania se exerce diariamente, esta também é evidente no respeito pelo outro e pelas suas opções, mesmo as de indiferença ou até as que sejam em tudo contrárias a um regime democrático.
não é à força nem com obrigações, multas ou impostos que se cria conciência nas pessoas - e fazê-lo ainda tornaria a inconsciência do voto pior do que já é.
e reitero o que antes disse - os motivos últimos desta discussão são políticos, ainda que o teu objectivo inicial fosse, talvez, diverso.

 
At 25.1.11, Blogger Scometa said...

Um esclarecimento. Quando disse "Se não querem viver em democracia, há alguns países por esse mundo fora que vos podem acolher", não estava a mandar ninguém embora. Estava a manifestar a minha instatisfação. Todos os dias somos bombardeados com críticas à nossa sociedade, que lá fora é que é, e quando chega a altura de fazer alguma coisa as pessoas ficam em casa. Seja a votar, seja a aderir a uma greve geral, por exemplo. A luta reivindicativa acabou. Daqui passa-se para a luta violenta. E o que eu estou a incitar aqui é à primeira, e não à segunda.

 
At 25.1.11, Blogger Scometa said...

Vera, percebo os teus argumentos, a sério que sim. Mas em nada muda a ideia que eu tenho de que estamos num tempo muito mau, onde esta indiferença, muito mais do que eu simplesmente respeitá-la, irá fazer com que eu e tu e nós todos que aqui estamos a debater ideias dentro de pouco tempo o teremos que fazer na clandestinidade. Ou o poder volta ao cidadão, ou então o sangue vai voltar à rua em força.

Eu não teria esta discussão se não olhasse para fora de Portugal e visse o que se passa com a democracia na Europa.

 
At 25.1.11, Blogger André Forte said...

Afasto-me dois dias e acontece que não tenho vagar para ler todos os comentários, por isso, feito parvo, vou só dizer umas coisas que faziam sentido quando eu ainda aqui estava.

O André diz uma coisa fulcral, na minha opinião, que há algo neste sistema que está a falhar. O animal político deve ser educado, isso é verdade, mas não anula a verdade de que todas as sociedades se relacionam entre si através da religião, da família, da economia e, sim, da política. É uma ideia algo estruturalista, mas que não morreu com o Maio de 68.

Sinceramente, eu acho que esta 'fetichização' do voto leva à desresponsabilização do animal político, mais do que outra coisa, porque toda a sua actividade se resume a essa coisa "insignificante" que é ir à urna num dia de eleições, de X em X anos.

O Aristóteles, com toda a sua razão, dizia que o animal político tinha de ser educado, mas ele vivia numa sociedade em que todos os (que eram considerados) cidadãos tinham realmente um papel activo na vida política da polis. E nós, temos o quê, além das urnas?

Eu acho que temos muito mais por onde agir, e que este elevar o voto aos píncaros da democracia é uma forma de negar a importância da vida política que devíamos levar em democracia. Isto de uma forma sucinta.

E, reparem, não estou a desvalorizar o voto. Estou a dizer que é só uma forma de se ter uma opinião e que deve ser utilizado como tal. É uma liberdade que nos dão, mas acho que a nível de gestão implica muitos problemas. Sinceramente, pela campanha que vi, só fiquei com ideia de que o Coelho era um parvalhão fantástico o suficiente para merecer o meu voto, e de resto... não sei.

Digo até o seguinte: faço questão de votar, por exemplo, nas autárquicas, onde conheço as pessoas, vi de perto o seu percurso e sei o que podem fazer. Aí, a democracia não é uma partidocracia bacoca (vantagens de se viver numa cidade pequena).

E desculpem-me o mau-jeito e a verborreia.

 
At 25.1.11, Blogger Scometa said...

É mesmo isso André Forte. De facto, votar deveria ser apenas uma das muitas coisas que deviamos fazer para viver melhor uns com os outros. Daí eu reiterar que este "deixa andar que depois vê-se" tem o seu maior reflexo na tendência cada vez mais abstencionista do povo português.

Acredito também que se formos mais exigentes também forçaremos a classe politica a tal. Se não podemos confiar nos politicos (que não confiamos), resta-nos o quê? Quem vai gerir o Estado? Quem vai ser a nossa voz?

 
At 26.1.11, Blogger \m/afarrico said...

a "força" e o impacto da abstenção esgota-se nas 24h seguintes às eleições. O seu efeito simplesmente não perdura porque não está institucionalizado.
Quem se abstém, mesmo julgando estar a fazê-lo, não participa. Auto excluí-se.

 
At 26.1.11, Blogger Carlos said...

E se a grande maioria da abstenção representa pessoas que não querem saber? Desde quando é que alguém precisa de justificar o facto de não ter ido votar? Desde quando é que somos obrigados a "interessar-nos"?
Se há coisa pela qual os nossos avós lutaram foi pela nossa liberdade e o maior desrespeito seria abdicar dessa mesma liberdade. Se votar fosse obrigatório então é que eu teria todos os motivos para não o fazer.
E não te preocupes Scometa, para quem acha que votar deveria ser um "dever" e que "quem não quer viver em democracia deve mudar-se para um país que o queira acolher" ias adorar viver num regime de extrema-direita.
Eu (e muitos) também me recusei a ir ao Dia da Defesa Nacional mas tu deves achar que eu é que sou o cobarde e que hei-de pagar uma multa.

 
At 26.1.11, Blogger Tiago Alves said...

Que me recorde, Scometa, nenhum partido fascista foi eleito por abstenção.

 
At 27.1.11, Blogger Scometa said...

Tiago, tens razão. Mas os tempos são outros. Quando os partidos extremistas (quer de esquerda, quer de direita), foram eleitos, existiam diversos factores históricos que promoviam o voto do medo animal e da desinformação, que é basicamente o pior voto possível. Hoje não é isso que tens. Hoje tens, nas sociedades democráticas, um acesso quase sem filtro à informação e aos acontecimentos globais. E o que a abstenção faz é promover o voto do medo e da desinformação, porque a grande franja de eleitores que tens hoje são reaccionários. O que devemos combater é isso, que a democracia seja posta em causa porque deixamos de querer saber.

Carlos, és a prova de que a única maneira de obrigar um português a ser mais interventivo é tocar-lhe onde dói. Ainda bem que este post tem quase a mítica marca dos 69 comentários, e o post logo abaixo "O que se passa com a democracia" tem 3. Talvez seja indicativo de alguma coisa. Não me interessa mesmo a forma como interpretam essa passagem que citaste, mas tenho um exemplo para ti: ninguém é obrigado a interessar-se por te ajudar se, por algum infeliz acaso do destino, fores atropelado. As pessoas podem simplesmente passar por ti e não fazer nada. A indiferença é um direito. Mas não é bonito quando toda a gente se presta imediatamente em teu auxilio? Porque o que os move nesse caso não é uma qualquer obrigação jurídica, é uma obrigação moral, altruista. Quem não consegue ver esta correlação com o problema da abstenção é porque continua a achar que o Estado e a sociedade civil são uma coisa que só importa quando nos toca a nós individualmente. Podes ter a certeza que não foi por isso que os teus avós lutaram, por uma sociedade indiferente.

 
At 27.1.11, Blogger Carlos said...

Scometa, mas o que te leva a pensar que eu não intervenho? Por que assumes que eu sou "indiferente"? Simplesmente não chamo covarde a quem não se interessa tanto por política como eu. Nem os mando procurar um país que os acolha. Cada um vota *se quiser* e não precisa de justificar nada a ninguém e a meu ver é assim que deve ser.
Quanto a eu ser atropelado, alguma vez estudaste direito? Existem muitas circunstâncias em que não tens o direito à indiferença. A omissão de auxílio pode ser crime. No entanto ninguém vai ser directamente prejudicado pelo facto de eu votar ou não. Mas assim como é bonito eu ser ajudado por que as pessoas realmente se interessam, também é bonito que as pessoas votem porque querem, e não porque têm medo de ser multadas. E se não quiserem votar, são livres de o fazer.
Achei piada a essa do "acesso quase sem filtro à informação e aos acontecimentos globais".

 
At 28.1.11, Blogger Scometa said...

Carlos, essa da "omissão de auxílio" é nova para mim, até porque não conheço nenhum caso em Portugal de alguém (cidadão comum) que tenha sido julgado por isso. Mas se assim é, então ainda bem.

De qualquer das formas, continuamos a discordar. O que é que me interessa se me prejudicas directa ou indirectamente? Aí é que não vejo diferença, só talvez hipocrisia. E não precisas interessar-te por política para votar. Assim como me perguntas se eu estudei direito, eu respondo-te que não, mas estudei, por exemplos, os principios do direito natural e do direito privado, assim como estudei bastantes filósofos que deram origem às ideias que hoje se definem como política. Mas não preciso de usar esse argumento para nada.

De qualquer das formas não vou estar a repetir-me. Se te sentes incomodado pelo que escrevi, estás tão no teu direito como eu sentir-me incomodado por não votares.

Mas quero retratar-me em relação à ideia de multa. Confesso que sou demasiado idealista, porque acredito que numa sociedade totalmente educada não se discutiria abstenção acima dos 50% numas presidenciais. Porque parece-me ser isso que ainda não percebeste. Mais de metade do país não votou. E é extremamente hipócrita depois ver toda a gente a exigir mundos e fundos dos políticos e chega a altura de votar e dizem que não têm interesse na política, que é seu direito não votar mas sim exigir. As coisas são assim, mas nada me impede de discordar profundamente delas.

 
At 28.1.11, Blogger Carlos said...

Scometa, não te perguntei se estudaste direito como forma de argumento ou para demonstrar que sei mais que tu sobre o asssunto, e lamento que tenhhas interpretado dessa maneira. Foi uma simples pergunta. Aliás, digo-te sinceramente que detesto direito, estou a estudar criminologia e a parte que menos gosto são as cadeiras relacionadas com direito.
Mas voltando a assunto, sim, tanto quanto sei, se eu for atropelado pelo menos a pessoa que me atropelou é obrigada a prestar-me auxílio. E não é assim tão incomum ouvir-se falar de crimes por omissão. Muitas vezes depende de o facto de a pessoa ser a tua responsabilidade ou não, mas de um modo geral, se vires alguém em perigo e puderes ajudar, tens o dever de o fazer.
Eu concordo contigo em que este é um assunto que toca a todos e que o ideal seria que toda a gente estivesse educada de maneira a intervir. Educada sim, obrigada não. Seria ridículo penalizar alguém por não querer participar na vida política. E o que é um voto de alguém que não se interessa por política? Acho que só contribui para que lá fiquem os mesmos.
A unica coisa que me incomoda é que soas demasiado autoritário e a parte em que dizes que quem não vota é porque não quer viver em democracia e, como tal, deve mudar-se para outro país é um bocado chocante, mas eu quero acreditar que não quiseste mesmo dizer isso.

 
At 28.1.11, Blogger Scometa said...

Custa-me ser eu a estragar o mítico 69 nos comentários, mas tem que ser :)

Carlos, eu quis provocar. Talvez por isso tenhamos 70 cometários num post. E tenhamos, de uma forma algo reduzida, feito um debate sobre o assunto. Um debate sério.

Tu vives numa sociedade que já te penaliza por muitas coisas que, em teoria, não deveria penalizar. Vives numa sociedade que permitiu que um governo usasse dinheiro público para impedir um banco de ir à falência. Vives numa sociedade que usa fundos de pensões para cobrir um déficit, tudo isto à custa de que os teus impostos vão subir e que os teus salários vão diminuir. E no meio de toda esta barafunda, tens 53% de abstenção nas eleições. Não tens uma greve a sério desde a greve dos enfermeiros ou dos professores. Tiveste uma greve geral sem adesão significativa, que foi um fracasso completo. Estamos a hipotecar o nosso futuro e o das gerações posteriores. Estamos a permitir que o sufrágio seja uma espécie de roleta russa, dê isso para onde der.

Se concordo que a obrigatoriedade do voto é em si anti-democrático? Sim. Mas se disso dependesse uma maior participação, com disciplinas nas escolas de cidadania que criassem uma maior consciência política nos jovens, pra mim seria um mal menor. Mas poderia ter o reverso da medalha, confesso.

E agora some food for thought: será que não interessa à classe política, e principalmente à classe económica, que o voto não seja obrigatório? Contra o risco de que uma maior parte da população desenvolvesse essa mesma massa crítica que muitos dos grandes chefes da nação tanto temem?

 

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