04 março, 2011

Prazeres desconhecidos



Quando no início dos anos 80 entrei no liceu, tive a sorte de ter um amigo com um irmão mais velho que, para além
de nos proteger da barbárie nos corredores, tinha uma generosa colecção de discos.

Passávamos a tarde a jogar Spectrum e a ouvir Velvet Underground, Clash, Dead Keneddys, Marianne Faithfull, Joy
Division, New Order, Stones, Sex Pistols, Gang of Four, Led Zeppelin, Echo and the Bunnymen, Cure, Birthday Party... tudo ao monte e sem qualquer noção de cronologia ou sequer do que estávamos a ouvir. Para nós tudo era novo, maravilhoso e fascinante.

No final do ano tinhamos discussões apaixonadas subordinadas a temas tão interessantes tais como se o Movement é um
album melhor que o Closer, se no Power Corruption and Lies os New Order se tinham vendido se o Sister Ray dos Joy Division é melhor que o original dos Velvet, se a Marianne Faithfull tinha ido para a cama com todos os Stones ou se o Charlie Watts não se safou, qual o melhor disco do Sandinista (obviamente o 3º), onde encontrar botas da tropa para o nosso número (tinhamos a vã esperança que um qualquer militar anão decidisse deixar as suas numa loja de ferragens que as vendia em 2ª mão), como é que se punha o cabelo como o Robert Smith (sabão ou Vic Vaporub?), se era melhor usar uma gabardine cinzenta ou castanha.
Tal comportamento não abonava muito acerca da boa saúde ou do futuro da vida social de uma criança de 12 ou 13
anos.

De todos os discos que ouviamos na altura o Unknown Pleasures exercia em mim um fascínio especial, desde a capa aos
temas, era um disco perfeito.Isto aliado ao facto do Ian Curtis se ter suicidado 3 anos antes. Acabou por ser o disco que me fez comprar o meu primeiro baixo e formar a minha primeira banda.

Dei o meu primeiro beijo à minha primeira namorada ao som do New Dawn Fades. Terá durado cerca de 4 minutos e
meio, sabia a morangos e acabou porque tive que virar o disco... o meu segundo beijo provavelmente foi ao som do She's lost control, mas desse não guardo recordações.

No sábado passado fui ver o Peter Hook à Casa da Música. Fui com as mesmas dúvidas que me fizeram não o ir ver no
ano passado a Paredes de Coura. Desconfio um bocado de reuniões de bandas ou de tours para tocar um qualquer album de há 20 anos atrás. Nisso os Pixies foram honestos, quando se juntaram foi pelo dinheiro.

Mas pronto. Era o Peter Hook, o gajo que me ensinou a tocar o baixo e aquele que eu sempre achei que deveria ter
sido o vocalista dos New Order (desculpa lá Bernard mas o Peter no Dreams never end e no Doubts even here deu-te uma ratada).

No Porto... a 15m de casa.
Podia ser mau? Não!
...mas para mim foi.


Todas as memórias esbatidas que eu tinha desse tempo agora desapareceram e misturam-se com uma imagem de um Peter
Hook gorducho, a perder a voz, a tocar o baixo aos bocaditos (raios te partam Peter... eras o maior, nem o Simon Gallup conseguia tocar o baixo tão baixo como tu pá).

Acredito sinceramente na tua honestidade e no esforço que puseste na actuação, acredito que te tenhas divertido
imenso. Para mim continuas a ser o maior...
...mas o sabor a morangos desapareceu
.

4 Comments:

At 4.3.11, Blogger Mariana said...

Lindo... :)

 
At 4.3.11, Blogger João Ruivo said...

Muito bem escrito! Parabéns!

 
At 5.3.11, Blogger Neuroticon said...

Grande post, mesmo :D

Isto é que é escrever bem...

 
At 5.3.11, Blogger vera viana said...

tocante - acho que o Peter Hook o deveria ler...

 

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