04 abril, 2011

Conceitos.


Hoje, durante a minha viagem até ao Porto senti-me aborrecido por não ter nada de novo para ouvir. Então regressei ao Let England Shake da PJ Harvey, que já perdi a conta das dezenas de vezes que ouvi até agora. O disco não se esgota e é impressionante a vitalidade de alguém que anda cá há 20 anos e ainda nos surpreende. A este, seguiu-se o Zen Arcade dos Hüsker Dü, e apesar das devidas distâncias (temporais e estilísticas) há um ponto que os une, isto é, são dois discos conceptuais.
Let England Shake gira em torno da guerra, partindo da Primeira Guerra Mundial e traçando linhas paralelas com os conflitos mundiais da actualidade, enquanto o Zen Arcade segue a vida de um adolescente que foge de casa devido ao ambiente familiar que o rodeia mas que cedo descobre que o mundo lá fora é ainda pior.
Estes são apenas dois exemplos de discos conceptuais e, muito recentemente tivemos por cá o espectaculo ao vivo daquele que é um dos mais célebres discos conceptuais do mundo, The Wall dos Pink Floyd.

O disco conceptual foi popularizado com o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band em 1967 e atravessou as décadas com exemplos brilhantes, desde logo com The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars, The Dark Side Of The Moon, Wish You Were Here ou The Lamb Lies Down on Broadway. O conceito foi alargado para o rock mais pesado e por exemplo, Marilyn Manson editou uma trilogia de discos conceptuais que se interligavam entre si também. Os Mastodon também editaram discos que contam uma história e que estão ligados entre si pelos temas que abordam (fogo, água, terra, ar). Os Isis também confessaram utilizar este método para criar os discos, no entanto foram-se recusando a comentar quais seriam as temáticas. O vencedor do Grammy de melhor disco do ano passado também é um exemplo de disco conceptual, The Suburbs dos Arcade Fire.

O disco conceptual parece dar-se bem e parece ser uma forma de atrair as pessoas sem ser pela parte musical que complementa o disco. E vocês, gostam, não gostam ou não querem saber de conceitos? As letras são muito relevantes? Procuram algumas mensagens nelas? Mais, se gostam, qual o vosso disco conceptual preferido?

22 Comments:

At 4.4.11, Blogger ::Cardoso:: said...

Do que te foste lembrar. O Zen Arcade e o Candy Apple Grey andaram no carro durante anos...
E ainda me lembro de uma tarde inteirinha a dançar o Don't want to know if you are lonely do CAG que me provocou uma dor de pescoço que durou uma semana... mas isso é outra história.
Grande Bob Mould compôs alguns dos melhores temas rock de sempre.
Sabes que o Greg Norton deixou a música e agora tem um restaurante?

 
At 4.4.11, Blogger Tiago Esteves said...

Os Arcade Fire não se terão inspirado nesta capa para o The Suburbs? é que mal olhei pensei numa construção da parte de carros e afins na capa do Suburbs...ah e o Suburbs é um álbum magnifico...e o de PJ é até agr o melhor do ano para o meu ouvido :D

 
At 4.4.11, Blogger João Veiga said...

pink floyd - dark side of the moon é o favorito sem dúvida :) mas é daqueles para ouvir só de vez em quando

mais... Delirium Cordia dos Fantômas :D

 
At 4.4.11, Blogger Rui Paulino said...

O de PJ Harvey é fantástico, mas um dos favoritos, senão mesmo O, tem de ser o "Hospice", dos The Antlers.

 
At 4.4.11, Blogger Rui Paulino said...

PS: não esquecendo o "Year Zero" de NIN.

 
At 4.4.11, Blogger MaryM said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 5.4.11, Blogger vera viana said...

Os álbuns conceptuais sempre foram dos meus preferidos, porque as letras são (sempre) importantes e porque a música é muito mais interessante quando tem significado.
Os meus preferidos:
- "Dreamweaver (Reflections of our yesterdays" " - Sabbat (na altura em que saiu, cheguei a traduzir as letras para português e, posteriormente, comprei o livro que o inspirou)
- "Operation Mindcrime" de Queensrÿche
- "Them" e o "Conspiracy" de King Diamond
- "Demanufacture" dos Fear Factory
- "Antichrist Superstar" - Marilyn Manson
- "The Downward Spiral" - NIN
- "Oceanic" - Isis.

 
At 5.4.11, Blogger Scapegoatt said...

Pink Floyd - The Wall
The Who - Tommy
Dream Theater - Metropolis pt2
Iron Maiden - Seventh Son of a Seventh Son

 
At 5.4.11, Blogger ::Andre:: said...

Primeiro a Alice, agora o Zen.. Andas-me a obrigar a tirar pó aos discos :)

Aprecio álbuns conceptuais mesmo que a minha perspectiva seja diferente da banda. Soa dicotómico, eu sei, mas quando o conceito não é assim tão explícito - a maior parte pelo menos nos discos que moram aqui - acabo por interpretá-los à minha maneira e tirar deles um outro significado e prazer.

 
At 5.4.11, Blogger ::Andre:: said...

Por exemplo, a Vera menciona o Oceanic disco que "tells a convoluted tale involving love, incest and suicide by drowning". Será que se identifica com o tema? Não creio, mas das letras nada explícitas interpreta-as à sua maneira. Tenho razão, Viana?

 
At 5.4.11, Blogger vera viana said...

André, encontras uma interpretação do Oceanic aqui: http://thebadpennyblog.wordpress.com/2010/01/01/isis-oceanic-secrets-revealed/.
Consta que o álbum foi concebido em redor de "leaves of grass" do fabuloso walt whitman (que podes ler a partir de http://www.gutenberg.org/files/1322/1322-h/1322-h.htm), embora o autor do link anterior aponte para “darkness at noon" de arthur koestler.
pela leitura das letras do "oceanic", é evidente que existe um conceito ou denominador comum que é, contudo, propositada e suficientemente dúbio para permitir, a cada um de nós, interpretá-las à sua maneira, como dizes. tanto como num poema, numa pintura ou num filme, é precisamente a multiplicidade de interpretações, na razão directa do hermetismo da obra, aquilo que, muitas vezes, mais nos seduz...

 
At 5.4.11, Blogger Tiago said...

Acho que os Isis gostam que as pessoas sintam os seus discos de maneiras diferentes...

Como é possível ninguém referir um Aenima dos Tool? :)
O De-loused in the comatorium dos Mars Volta
O Eternal Kingdom dos CoL.

Há muitos bons discos conceptuais, e eu aprecio imenso este tipo de conceder discos.

 
At 5.4.11, Blogger O Castrador said...

Neuroticon, se a memória não me falha, até o Baudelaire que dizes que leste destacou o estatuto da própria 'Crítica' como complemento da criação e instrumento na preparação e fruição da actividade estética, para além de contribuir decisivamente para a renovação da 'matéria artística'. Isto para dizer que te devias focar mais na explanação do porquê dos teus gostos em vez de fazeres o simples resumo do que fala o álbum/livro. Se queres mostrar o que andas a ler/ver/ouvir tenta fazer uma lista por pontos dado que acrescenta exactamente a mesma qauntidade de informação nova à nossa cabeça. A sério, não te esforçes tanto.

 
At 5.4.11, Blogger ::Andre:: said...

Ser concebido e inspirado são coisas diferentes, mas não concordo que seja dúbio. Nós sabemos que o conceito, o tal denominador comum está lá, mas as letras são passíveis de terem a nossa própria interptretação. Repara na Carry:
And the water takes hold
Fills his lungs and crushes his body

Dust floats through sun and water
As you draw close
Fall to me
He sees like his never seen before
I will carry you
True and free

And the water carries him away
Now that you are here
You'll swim with me
Soon he ceases to be at all
I am clutching you
True

He sees like he never sees before
He is light in water


Eu consigo afastar-me do tema central e levar estas palavras para onde quiser. Não é uma escrita directa, é metafórica. Aliás, sempre gostei disso nos Isis. O próprio Panopticon, álbum inspirado no Focault e na prisão do Bentham, tem frases como From forest caves and azure skies We crashed upon this earth The years they passed and so did we as quais podem encaixar da forma como entenderes. Anyway, são opiniões diferentes, mas [modofanboy]fala-me lá desse Leaves of Grass.

 
At 5.4.11, Blogger Tiago said...

Exacto, são palavras que dá para interpretarmos ao nosso dispor.
Eu gosto de saber os conceptos, mas também sabe bem ouvir-mos como quisermos, porque até podemos eventualmente adaptar a um mood.
Também fiquei interessado nesse Leaves of Grass.

 
At 5.4.11, Blogger Inês Guedes said...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
At 5.4.11, Blogger Neuroticon said...

Cardoso, desconhecia completamente os dotes culinários do Greg :p

Tiago Esteves tenho reparado que apreciamos bastantes coisas em comum!

André, esse também é um dos objectivos, relembrar aqueles bons discos que estavam no fundo da estante ;)

Vera, confesso que nunca passei do segundo tema do Operation Mindcrime, mas a sua reputação é enorme, um dia volto a ele! E esse texto é uma mais-valia, queria era mais desses :)

Tiago, não sei se consideraria o Aenima conceptual, mas é um belo disco claro :)

Caro Castrador :)

A memória falhou-te!
E falhou-te porque eu nunca li o autor francês e até fiz questão de referir isso no meu post anterior, reforçando a ideia de que seria um dos autores que nunca tinha lido e que provavelmente me daria mais gozo ao fazê-lo. Também não faço a menor ideia se foi Baudelaire que afirmou que ela era "complemento da criação e instrumento na preparação e fruição da actividade estética, para além de contribuir decisivamente para a renovação da 'matéria artística'." No entanto, se realmente foi, concordo! E concordo porque a visão que tenho da crítica é a de que é ela que torna o ciclo completo.
E falhaste também ao referir a palavra "crítica", porque nunca foi esse o objectivo deste pequeno texto (ora lê lá outra vez), que teve apenas como objectivo, partir de uma experiência (audição de dois discos, poderiam ser quaisquer outros que se enquadrassem no tema), traçar um paralelo (possuir uma temática) e a partir daí fazer o diálogo fluir neste espaço (coisa para a qual também tu poderias ter contribuído) e que foi claramente bem sucedido.
Quanto ao esforçar, caro Castrador, quando fores convidado tenho a certeza que te esforçarás também para manter o nível de tão ilustres escritores deste espaço...

 
At 5.4.11, Blogger vera viana said...

ok, André, não percebi o que tu não percebeste - eu estava a concordar contigo, ao dizer que as letras de isis são tão metafóricas quão livremente interpretáveis, daí muito do seu interesse. Por te deixar na dúvida, podes entendê-las como quiseres e, inclusive, de acordo com o que na altura sentes. Li algures que a "história" versa sobre um homem se afogou por causa da relação incestuosa da mulher por quem se apaixonou, mas não encontro uma referência directa ao incesto nas letras, por exemplo...
e já me apercebi que ficas muito susceptível ao falar de isis...
mas vê lá se não encontras alguma relação entre o oceanic e este poema:
"Out of the rolling ocean the crowd came a drop gently to me,
Whispering I love you, before long I die,
I have travel'd a long way merely to look on you to touch you,
For I could not die till I once look'd on you,
For I fear'd I might afterward lose you.
Now we have met, we have look'd, we are safe,
Return in peace to the ocean my love,
I too am part of that ocean my love, we are not so much separated,
Behold the great rondure, the cohesion of all, how perfect!
But as for me, for you, the irresistible sea is to separate us,
As for an hour carrying us diverse, yet cannot carry us diverse forever;
Be not impatient−−a little space−−know you I salute the air, the
ocean and the land,
Every day at sundown for your dear sake my love."

é, obviamente, do leaves of grass, obra de um poeta norte-americano interessantíssimo, que nos deixou pérolas como esta:
"I have said that the soul is not more than the body,
And I have said that the body is not more than the soul,
And nothing, not God, is greater to one than one's self is,
And whoever walks a furlong without sympathy walks to his own
funeral drest in his shroud,
And I or you pocketless of a dime may purchase the pick of the earth,
And to glance with an eye or show a bean in its pod confounds the
learning of all times,
And there is no trade or employment but the young man following it
may become a hero,
And there is no object so soft but it makes a hub for the wheel'd universe,
And I say to any man or woman, Let your soul stand cool and composed
before a million universes".
(48,"leaves of grass")

 
At 5.4.11, Blogger Tiago said...

Caro Neuroticon: Eu vejo o Aenima como um disco conceptual. Se analisares, há uma linha de seguimento através das faixas, quer musicalmente, quer a própria disposição do disco, e até os interlúdios ajudam a dar coesão a esse conceito do disco.
Liricamente, é verdade que as faixas não têm seguimento, mas parece-me claro que existe uma temática que vai da espiritualidade, questionarmo-nos ao estremo ainda que a vários níveis, quando ouvimos o Aenima puxa para várias temáticas, e leva a nos questionar-mos sobre isso, pensar sobre isso. Fala das sensibilidades do ser humano e das fragilidades.
Certamente que não será o álbum conceptual mais perfeito que existe, mas não deixo de o considerar. :)
Na verdade, musicalmente é perfeito, o conteúdo lírico é que talvez não seja tão forte na ligação, mas o Maynard escreve como ninguém!

 
At 5.4.11, Blogger Neuroticon said...

E eu concordo completamente contigo! O conteúdo, musical e lirico é realmente sublime!
Mas se há coisa que acho que o Aenima não é, é seguidor de uma linha. Isso acho muito mais o Lateralus. O Aenima acho-o muito mais fragmentado!

 
At 6.4.11, Blogger ::Andre:: said...

Não fico nada susceptível, Vera! É preciso colocar smileys o tempo inteiro para se saber que aquela pessoa, neste caso eu, está apenas a partilhar algo contigo de forma saudável? :)

Entretanto, se o "Leaves..." desaparecer da tua prateleira há sempre uma possibilidade de não ter sido eu, não há?

 
At 6.4.11, Blogger vera viana said...

Neuroticon - do "operation: mindcrime", só aconselho o suite sister mary (http://www.youtube.com/watch?v=K74tMC1oZG8), embora precises de conhecer o álbum todo para lhe entender o conceito. e apesar de esta faixa já ter 23 anos, continua excelente (mas sem esquecer que relacionada com o metal que se fazia da altura, claro).

para quem quiser, a versão original do leaves of grass (em pdf) está disponível a partir daqui: http://www.mediafire.com/?yay59td89ew7u56#1
já foi editado pela assírio & alvim e pela relógio d'água.

e, André, se desaparecer da minha prateleira, já sei quem foste...

 

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