28 março, 2011

Sintam-se avisados!

A literatura é um talvez um dos tipos de arte que mais nos recompensa assim que digerimos um livro. No entanto, a literatura é, por muitos de nós, relegada para um terceiro ou quarto plano, em detrimento de um disco ou um filme. E porquê? Talvez por ser algo que nos exija mais, mais tempo e mais concentração.
Não vou ser hipócrita, apesar de me interessar por literatura é muito mais fácil para mim falar sobre o Abbey Road, o The Dark Side Of The Moon, o A Love Supreme, o Kid A ou o Unknown Pleasures, assim como do Le Mepris, do 2001: A Space Odyssey, do Smultronstället, doou do Zerkalo.
As artes interessam-me e os clássicos também. No entanto, admito que nunca li nenhum Dostoyevsky, Shakespeare, Joyce, Baudelaire, Mann ou Tolstoy.
Sendo assim, o meu escritor de eleição pode parecer-vos uma escolha nada óbvia ou até duvidosa.
Falo-vos de Chuck Palahniuk,um autor contemporâneo, que escreve obras como ninguém.
Os seus personagens são sempre transgressores, desiquilibrados, neuróticos e viciados, são pessoas que vivem á margem, muitas vezes tornando-se quase caricaturas, de tão extremos e vincados que são. O mundo em que vivem é um mundo sempre desencantado e teimam em dançar no abismo.
Apenas conheço os primeiros 5 livros de Palahniuk, todos traduzidos em português e facilmente encontrados nas grandes cadeias de livros. Os seus títulos são:
Fight Club - será mesmo preciso dizer alguma coisa sobre este? É o livro que inspirou um dos filmes das nossas vidas. Um personagem (nunca lhe sabemos o nome), luta contra a insónia e conhece Tyler Durden (personagem mais fixe de sempre) e com ele cria um clube insólito de porrada como terapia de choque. As coisas tornam-se demasiado sérias e acabam por implodir.
Survivor - Tender Branson está no cockpit de um avião e decide contar-nos a sua história, que ficará gravada nas caixas negras. É um dos poucos sobreviventes de um culto religioso que cometeu suicídio em massa dez anos antes e a guiar-nos-á por uma das histórias mais delirantes de sempre. O filme foi cancelado assim devido ás semelhanças com o 11 de Setembro.
Invisible Monsters - Este foi rejeitado por ser demasiado doentio e só foi editado após o sucesso de Fight Club. Conta-nos a história de uma mulher desfigurada e de Brandy Alexander, a transexual que a acompanha. É um livro sobre o mundo da moda e da superficialidade da sociedade de consumo.
Choke - também já foi transposto para a grande tela e conta-nos a história de Victor Mancini, um homem que para ter dinheiro para cuidar da mãe doente, vai a restaurantes e simula que se engasga usando as pessoas que o ajudam para o suportarem monetáriamente. Esta história entra por caminhos de conspirações e até o pénis de um famoso entra na história.
Lullaby - Este foi o primeiro a entrar pelos caminhos do terror e do sobrenatural e marca uma certa viragem na literatura do autor. Seguimos Carl Streator um jornalista que segue casos de morte súbita em crianças, sendo que o seu filho também faleceu dessa maneira. Contudo, pode haver uma explicação para todos esses casos...

Palahniuk é niilista até dizer chega, é original quanto baste e as suas histórias são completamente alucinantes. A juntar a tudo isto temos a sua escrita que foi considerada pós-moderna ou minimalista e é rápida, destrutiva e pungente, como podem perceber ao verem o Fight Club.
Esta é a minha contribuição para a divulgação da literatura, agora ler Palahniuk é convosco...

Já agora, que clássicos recomendam?

16 Comments:

At 28.3.11, Blogger Eduardo said...

O Palahniuk é por acaso um daqueles autores que infelizmente ainda não peguei. A minha leitura neste momento anda entre o "Operador de Call Center" de Hugo Pereira e o "Rendez-vous with Rama" do Arthur C. Clarke.

 
At 28.3.11, Blogger *maps* said...

Operador de Call Center? Interessante... tens que me emprestar para dar uma vista de olhos :)

 
At 28.3.11, Blogger André Forte said...

eu comecei a ler o lullaby e simplesmente não consegui acabar. no 4º capítulo já tinha percebido mais ou menos as voltas que a estória ia dar e a forma como ele se afasta dela não me fluiu muito. recordou-me um Saramago, principalmente porque se propõe a desenrolar uma narrativa a partir de um mesmo "e se...?", mas com muito para andar.

agora, clássicos, "Cantos de Maldoror" para acordar bem-disposto :P

 
At 28.3.11, Blogger Scapegoatt said...

Eu ando a ler este:
Os Melhores Contos de H. P. Lovecraft - 1º Vol.

 
At 29.3.11, Blogger O Castrador said...

"No entanto, a literatura é, por muitos de nós, relegada para um terceiro ou quarto plano(...) Talvez por ser algo que nos exija mais, mais tempo e mais concentração."

Concordo e acrescento: talvez exija um mundo interior mais rico e uma imaginação criativa.

"é muito mais fácil para mim falar sobre o Abbey Road, o The Dark Side Of The Moon, o A Love Supreme, o Kid A ou o Unknown Pleasures, assim como do Le Mepris, do 2001: A Space Odyssey, do Smultronstället, do 8½ ou do Zerkalo"

Apesar de paralelizares as tuas referências ao género "Rolling Stone" best-of do século XX, e se te sentes confiante, creio que terias feito uma melhor opção ao escolher falar dessas obras a fundo ao invés de te limitares a resumir os livros do Palahniuk. Até porque para "escolha nada óbvia ou até duvidosa", são opções "todos traduzidos em português e facilmente encontrados nas grandes cadeias de livros".

Mesmo, assim, recomendo-te que leias Ballard. O Palahniuk roubou muito dele.

 
At 29.3.11, Blogger Neuroticon said...

O Castrador, tal como referi é muito mais fácil para mim falar desses clássicos, inquestionaveis, sejam "género Rolling Stone" ou não!

No entanto, quanto a clássicos de literatura, não é assim, e penso que me encontro no mesmo ponto que a grande maioria (exceptuando obviamente as pessoas de letras, etc).

A "escolha nada obvia" deve-se ao facto de Palahniuk não ser nem um clássico como outros que referi, nem um best-seller como por exemplo Dan Brown...

Quanto ao Ballard, obrigado pela recomendação ;)

Disseram-me que o Don DeLillo também foi grande inspiração para Palahniuk, já leste alguma coisa dele?

 
At 29.3.11, Blogger Tiago said...

Escolhas óbvias ou não, há sempre gente que não conhece determinadas coisas, e é através de partilhas deste tipo, que pode incentivar as pessoas a experimentarem, neste caso estes livros, e podem gostar ou não, mas fica a conhecer quem não conhecia.
A partilha e o trocar ideias/informações com os outros nunca devem ser descriminadas! É assim que aprendemos uns com os outros.

 
At 29.3.11, Blogger João Ruivo said...

Conheço e aprovo! Um grande escritor contemporâneo.
Curiosamente li todos esses menos o Fight Club (embora, claro, já tenha visto o filme).

O que gosto em Palahniuk é ele escrever de uma forma muito simples e directa mas, ao mesmo tempo completamente desalinhada e irreverente. Isso e as histórias e personagens completamente bizarras/excêntricas e imprevisíveis.

 
At 29.3.11, Blogger João Ruivo said...

Esqueci-me de dizer, para além dos dotes literários, os seus livros têm sempre artworks muito bonitos. (adoro a capa da edição portuguesa do Monstros Invisíveis).

 
At 29.3.11, Blogger Carlos said...

Ao contrário de ti, acho a literatura bem mais "fácil" que a música ou o cinema. Sou capaz de passar uma tarde inteira a ler um livro, já com filmes facilmente me aborreço. Normalmente preciso de ouvir um albúm várias vezes até gostar dele, o mesmo não me acontece com um livro. E enquanto que conheço bem os "clássicos" de Dostoiévski, Kafka, Tolstói, etc, nada me interessam os filmes do Godard (os que vi achei extremamente aborrecidos) e não me lembro de ter ouvido um albúm dos Beatles do início ao fim. E isto não significa que goste mais de literatura ou que a ache "superior", apenas não acho que me exija mais concentração que os outros tipos de arte.
Já agora, Os Irmãos Karamazov é o melhor livro que já li.

 
At 30.3.11, Blogger Pereira said...

Recomendo Dostoiévski ou não fosse dele a foto que aparece em frente ao meu nickname =]

Leio também o Baudelaire, Murakami, Gorki, Tchekov...

Do Palahniuk só tenho o "Fight Club". Achei engraçado.

 
At 30.3.11, Blogger vera viana said...

não sei, propriamente, o que são clássicos da literatura, dado que o conceito é relativo...
basta pensarmos na música - o "history of a time to come" ou o "masters of reality" são tão clássicos quanto "der ring des nibelungen" ou "toccata e fuga"...
e mesmo não sendo da área de letras, a "dimensão" de um livro não me assusta, antes pelo contrário, porque será, à partida, mais envolvente do que outra leitura dita mais "ligeira".
dos "meus" clássicos, recomendo sempre e vivamente: Dostoyevsky, Tolkien, Kafka, Poe, Orwell , Huxley, Stoker, Saramago e Gonçalo M. Tavares.
O Palahniuk é um dos que tenho na calha...

 
At 30.3.11, Blogger Scometa said...

Desses teus clássicos ainda nao li Tolkien ou Stoker. Quanto ao Gonçalo M. Tavares, tenho que lhedar uma oportunidade. Fico sempre depé atráspor causa da pungênciq latente que infesta os autores portugueses. O "Operador de Call Cnter" é um livro sem qualquer estrutura leterária, mas não tem essa pretensão e é extremamente honesto. Está disponível para download gratuito aqui http://www.bubok.pt/libros/1519/Operador-de-Call-Center

 
At 30.3.11, Blogger Scometa said...

Tantos erros... Estrutura literária. Isto é o Deus do proletariado a castigar-me por ter comprado um ipad

 
At 30.3.11, Blogger ::Andre:: said...

Compreendo e partilho o teu desabafo, Beto. Não entro na questão do tempo pois tenho-o para outras coisas, mas acabo todos os anos desiludido por não ter lido mais.

Por aqui folheiam-se as páginas do livro que compila os textos de George Steiner no The New Yorker; "Deus não gosta de nós", o livro ficcional de Hank Moody antes de começar a nova temporada de Californication; e o último de Tony Judt Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos.

 
At 30.3.11, Blogger ::Andre:: said...

Li o Fight Club há muito tempo atrás, mas motivado apenas pelo filme. Tenho que ler mais Palahniuk.

 

Enviar um comentário

<< Home